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25 anos do Plano Collor

- Publicada em 16 de Março de 2015 às 00:00

“Mérito do Plano Collor foi mudar economia”, diz Zélia Cardoso


ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Jornal do Comércio
Há exatos 25 anos, em 16 de março de 1990, o Brasil foi sacudido pelo anúncio das medidas do Plano Brasil Novo, conhecido até hoje como Plano Collor. Quem viveu aquele momento, mesmo criança, lembra-se da palavra "confisco", ainda empregada pelos que viram e sentiram o efeito do bloqueio das contas-correntes, da poupança e dos depósitos overnights.

Há exatos 25 anos, em 16 de março de 1990, o Brasil foi sacudido pelo anúncio das medidas do Plano Brasil Novo, conhecido até hoje como Plano Collor. Quem viveu aquele momento, mesmo criança, lembra-se da palavra "confisco", ainda empregada pelos que viram e sentiram o efeito do bloqueio das contas-correntes, da poupança e dos depósitos overnights.

À frente do Ministério da Economia, a economista Zélia Cardoso de Mello se tornou a porta-voz das medidas, enfrentou embates em rede nacional, enquanto jornalistas e população tentavam entender algo que até hoje parece incompreensível para muita gente.

A ex-ministra da Economia se exaspera ao ser questionada, principalmente, sobre os efeitos que chama de "nefastos" decorrentes das medidas que defende como um mal necessário. Na balança, entre erros e acertos, pondera que o plano trouxe correções importantes, como a abertura da economia brasileira, evitou perdas ainda piores e deu condições para fazer com que o Plano Real fosse bem sucedido.

Atualmente, a ex-ministra reside em Nova Iorque, nos EUA, onde presta consultoria para estrangeiros interessados em investir no Brasil. Por isso, segue observando a nossa economia.

Zélia define com facilidade o perfil de seus clientes diante do atual cenário econômico brasileiro: "o investidor que tem um horizonte de investimento mais curto não quer investir no Brasil. O que tem um horizonte mais longo vê uma boa oportunidade em comprar ativos baratos e esperar a valorização. Aqui fora ninguém espera uma recuperação antes de 2016." Também fica à vontade para tecer críticas à condução econômica do País.

Jornal do Comércio - O Plano Collor surgiu como mais uma tentativa de dar fim à hiperinflação após outras medidas que não tiveram sucesso. A partir dessa contextualização, a senhora diria que o plano foi uma alternativa condizente com o período?

Zélia Cardoso de Mello - Sem dúvida alguma. Entre as escolhas que tínhamos naquele momento - não muitas devido ao estado da economia - o plano continha medidas de curto e longo prazo, medidas de combate à inflação e medidas estruturais.

JC - Na época, qual foi o diagnóstico sobre as causas da inflação? Hoje a senhora concorda com esse diagnóstico?

Zélia - Pergunta difícil, mas se a pergunta é "dada à situação a senhora teria o mesmo diagnóstico", a resposta é sim. Havia descontrole monetário e precisávamos recuperar o valor da moeda.

JC - O que estava causando o descontrole monetário?

Zélia - É um livro que se tem que escrever para explicar isso. Tínhamos um problema fiscal muito grande e tivemos que fazer um ajuste. É uma conjunção de coisas, do lado fiscal e da impossibilidade de o governo fazer política monetária, porque já se tinha perdido o controle. Já estávamos em hiperinflação.

JC - Qual foi o erro do plano econômico?

Zélia - Isto vou deixar para quem escrever a história econômica daquele período.

JC - Então, quais foram os acertos da política econômica daquele governo?

Zélia - Mudar o rumo da economia brasileira com as medidas de privatização, liberalização, comercial e financeira, enxugamento da máquina do governo e diminuição do papel do Estado.

JC - Qual a sua contribuição para a economia do País?

Zélia - A contribuição não foi minha individual, foi de um grupo de economistas comprometidos com mudança e apoiados por um presidente com coragem. Nossa contribuição foi de mudar o rumo e as características da economia brasileira, antes uma economia fechada, cujo crescimento se baseava no investimento estatal e no modelo de substituição de importações, sem competitividade e sem inovação tecnológica. Fizemos mudanças na área industrial, com o programa de produtividade e competitividade, na área comercial com o fim das restrições à importação, fim de subsídios, na área administrativa, com o fim de vários ministérios e órgãos reguladores, na área de informática, com o fim da reserva de informática, entre as mais importantes.

JC - Para a população, foi um sacrifício elevado demais para não gerar o efeito esperado, de combater a inflação? Por que o plano não surtiu o efeito previsto?

Zélia - O combate à inflação veio. Nós evitamos a hiperinflação. Infelizmente há coisas na vida - e eu já estou cansada de repetir isso, realmente, estou exausta -, se a gente deixasse o que aconteceria? Não dá para provar. Infelizmente, é uma teoria que não conseguimos provar. Se hoje eu não tivesse saído na rua, eu teria sido atropelada? Não dá para provar essa teoria. Então, se a gente não tivesse feito isso, teria hiperinflação, eu não consigo provar isso, mas é o que aconteceria. E a hiperinflação causaria uma destruição de riqueza para todo mundo. As pessoas não teriam restituição de dinheiro em um ano e meio com correção fixa como foi feito. Elas simplesmente não teriam nada. Realmente elas não teriam nada. Mas, como eu falei, essa é uma teoria que não dá para provar. Nosso diagnóstico é que já estávamos vivendo a hiperinflação e que se medidas drásticas não fossem tomadas, toda a riqueza das pessoas seria destruída, como foi na Alemanha. Esse era um diagnóstico e eu acho que conseguimos evitar que se chegasse a esse ponto. Nós fizemos, também, mudanças estruturais no País que fizeram com que mais tarde o Plano Real pudesse vir, se solidificar e ser um sucesso. Houve erros, vamos dizer, o resultado não foi 100% do que se queria, é verdade, mas na vida a gente não consegue 100% do que a gente quer. Houve erros, houve problemas, mas eu acho que os avanços que fizemos compensaram estruturalmente no País, além do fato de termos evitado a hiperinflação.

JC - A equipe do governo Collor tinha a dimensão da reação popular diante do plano? Seria possível fazer de uma maneira menos traumática?

Zélia - A reação era esperada. Não tinha como fazer de outra maneira, porque se tivesse nós teríamos feito, né? Na nossa opinião não tinha outra solução. A minha mãe vendeu imóvel na véspera, dois dias antes, colocou tudo no banco, então, eu tenho exemplo na família do que aconteceu. Eu sinto muito se houve consequências terríveis em alguns momentos, mas toda a pessoa que está em um cargo público tem que saber que cada decisão que ela toma tem consequência, boas e más. Eu não sou a primeira, minha equipe não é a primeira, o presidente também não foi o primeiro ocupando cargo público que tomou decisões que tiveram consequências por vezes nefastas. Quem não quiser ter esse trabalho não vai para um órgão público. Metade da população me odeia. Eu arco com as consequências do que fiz. Sinto muito pelos efeitos nefastos, mas não tínhamos outra alternativa, se tivéssemos teríamos usado.

JC - Estamos em um ano com pessimismo e os resultados econômicos revivendo 1990. Segundo o Boletim Focus, podemos registrar o pior avanço do PIB em 25 anos. É um retrocesso ou uma fase ruim?

Zélia - Ambos: o retrocesso já vem acontecendo há algum tempo pelas medidas intervencionistas, a alta participação do governo na economia, a existência de mais de 30 ministérios e assim por diante. Fase ruim, porque em algum momento, se a presidente apoiar o ministro da Fazenda, medidas de correção começarão a fazer efeito.

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