Porto Alegre, qui, 03/04/25

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Publicada em 30 de Março de 2025 às 18:13

Para Jair Krischke, a memória é a grande vacina contra ditaduras

Jair Krischke é o fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH)

Jair Krischke é o fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH)

Fotos: TÂNIA MEINERZ/JC
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Bolívar Cavalar
Bolívar Cavalar Repórter
Em 2025 completam-se 61 anos do início da ditadura militar brasileira, um período marcado por perseguições políticas e pelo cerceamento aos direitos civis. Hoje, em pleno século XXI, são várias as narrativas de pessoas públicas e agentes políticos sobre o que ocorreu neste regime que se estendeu em território nacional por mais de 20 anos. Neste sentido, o fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, relata, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, os principais acontecimentos do regime militar sob a ótica de quem trabalhou, desde o golpe de 1964, no resgate de perseguidos políticos das ditaduras do Brasil e de outros países latino-americanos.
Em 2025 completam-se 61 anos do início da ditadura militar brasileira, um período marcado por perseguições políticas e pelo cerceamento aos direitos civis. Hoje, em pleno século XXI, são várias as narrativas de pessoas públicas e agentes políticos sobre o que ocorreu neste regime que se estendeu em território nacional por mais de 20 anos. Neste sentido, o fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, relata, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, os principais acontecimentos do regime militar sob a ótica de quem trabalhou, desde o golpe de 1964, no resgate de perseguidos políticos das ditaduras do Brasil e de outros países latino-americanos.
Para Krischke, a principal "vacina" contra regimes ditatoriais é a memória, e, por falta de políticas públicas no Brasil para lembrar da ditadura militar, é que há estes movimentos de revisionismo histórico por parte de personalidades do meio político. Na avaliação do fundador do MJDH, o que há é o oposto: políticas de esquecimento, para que haja impunidade àqueles que cometeram crimes contra a vida durante o período ditatorial. Ele conta, nesta entrevista, os causos mais marcantes daquela época, seja pelo ponto de vista dos documentos da ditadura que recolheu, seja em um âmbito mais pessoal, de quem viveu ativamente aqueles acontecimento.
JC - Em 2025, completam-se 61 anos desde o início da ditadura militar brasileira, período em que, na atualidade, existem diversas narrativas sobre como foi…
Jair Krischke - Na madrugada de 1º para 2 (de abril de 1964), no Congresso Nacional - e isso não é uma informação privilegiada, isso é público, está nos registros -, é que o Aldo de Moura Andrade (Presidente do Congresso em 1964) declara vaga a presidência da República, porque o presidente não se encontrava mais em território nacional. Mentira! Eu tenho aqui nos nossos arquivos um bilhete do Jango, de próprio punho, naquele caderno que se encontrou, onde ele escreveu para um amigo, de Montevidéu, pedindo que gestionasse junto às autoridades no Uruguai o seu asilo político. E o Jango data assim: Brasil, 4 de abril de 1964. Na verdade, ele foi para São Borja, para a estância dele. E aí um avião foi buscá-lo, e com esse avião ele foi para o Uruguai, em 4 de abril. Então, é mentira que estava vaga a presidência da República. Ele estava no País. Em 2 de abril, ele deu entrevista em Porto Alegre. Não tem nenhuma informação privilegiada, é pública.
JC - Houve também uma tentativa de golpe em 1961, em que Leonel Brizola promoveu a Campanha da Legalidade…
Krischke - O João Goulart foi em uma visita oficial à União Soviética e à China. Ele estava já voltando, estava em Singapura. Um assessor de imprensa dele é chamado em um hotel e dizem: tem um telefonema para um tal de João Goulart, e tem um jornalista da Associated Press (agência de notícias internacional) que quer falar com ele. Aí que ele ficou sabendo do golpe. O jornalista disse: o senhor vai voltar (para o Brasil)? A volta do Jango é muito interessante. Ele, de Singapura, foi para Paris. De Paris, foi para Nova York. De Nova York, ele foi para Buenos Aires, pela Rota do Pacífico. Pousou em Buenos Aires, e foi para Montevidéu. Ele chegou em um hotel e ficou esperando, enquanto o seu cunhado, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, fazia um movimento forte da Legalidade. Pouco estudado, mas importantíssimo, que aconteceu no Sul do mundo, e ele move uma resistência. De repente, nesse movimento o Brizola consegue o apoio do Terceiro Exército, que hoje é o Comando Militar do Sul. E com a adesão e muita correlação de forças, muda completamente o País. Aí o Brizola liga para o Jango: "Eu sei que está vindo uma delegação para negociar contigo. Não negocia nada. Vem para cá, vê com os teus próprios olhos, e aí negocia". O Jango não ouviu o Brizola, e negociou. E negociou o quê? A mudança do regime de presidencialista para parlamentarista. Não se tem ideia de algumas pessoas que compunham essa delegação e que foram lá negociar com ele, mas a história registra, e a imprensa registrou. A figura principal chamava-se Tancredo Neves. Tinha uma figura secundária, o então Coronel Ernesto Geisel. Fizeram essa proposta: os militares aceitam (parar o movimento de golpe) só com a mudança de regime. E o Jango aceitou, veio para cá (Porto Alegre). Desceu aqui, chegou no Palácio Piratini e contou para o Brizola (que negociou a troca de regime). Eu lembro, era um dia frio de agosto. Diz o Brizola assim para o Jango: "agora, tu vai ali na sacada e explica para o povo a cagada que tu fizeste". O Jango foi lá na sacada e não disse nada. Nada. E aí houve um estremecimento entre os dois. O Jango, habilidoso, assume (a presidência), deixa passar um tempo, e convoca um plebiscito: "vocês querem continuar com o parlamentarismo? Não? Então, volta o presidencialismo".
JC - Na sua avaliação, por que a tentativa de golpe em 1964 foi bem sucedida, ao contrário de 1961?
Krischke - Em 1964 os militares se organizaram melhor tinham o apoio dos Estados Unidos, e isso é muito importante. Havia, antecedendo o golpe, no Rio de Janeiro, nos muros do Morro Carioca: "Basta de intermediários, Lincoln Gordon para presidente". Lincoln Gordon era o embaixador americano. E o adido militar era o então coronel Vernon Walters, muito amigo do (ex-presidente da República, general) Castello Branco - se conheceram na Segunda Grande Guerra. O Vernon Walters fazia a ligação entre as tropas brasileiras e as tropas americanas. Os americanos, através da CIA, financiaram a campanha de vários deputados, senadores, governadores, e investiram muito, mas não foi o suficiente. Então, "vamos para o golpe". E foram. E foi um desgaste ao Jango, todo um desgaste. A Igreja Católica, por sua hierarquia, também foi golpista. Chegaram ao cúmulo de mandar um padre para cá na Cruzada da Família. Ele vinha com um terço de rezar, fazia aqui em Porto Alegre uma grande concentração: "Família que reza unida, permanece unida". E ele, com seu discurso, em um português terrível, falava de "comunismo", do "mal do comunismo". E também o empresariado. Quando dizem que foi uma ditadura cívico-militar, eu sou civil e não participei disso. Eu gosto de empresarial-militar. Empresários, banqueiros, etc. É um segmento importante. A Marcha com Deus pela Liberdade, de São Paulo, foi esse desgaste, o risco do comunismo. O golpe, ele tinha um discurso de que no Brasil havia muita corrupção. E eu digo: bendita aquela corrupção, fantástica aquela corrupção. A ditadura industrializou a corrupção. E a outra que é o combate ao comunismo. Que comunismo? É um velho discurso que os americanos usaram em qualquer lugar do mundo, corrupção e comunismo. Mentira. É tanta mentira que eles chamaram o golpe de revolução. Como? É golpe, não é revolução coisa nenhuma.
JC - Em 1964, o senhor era um jovem em seus vinte e poucos anos. Como acompanhou o golpe, pessoalmente? Acreditava, à época, que se estenderia por tanto tempo?
Krischke - Em 1964, eu confesso, muito honestamente, que pegou a mim e a muita gente de calça curta. A gente não esperava esse golpe. Havia uma tensão política, sim, claro. Quando, às vésperas do golpe, eu ouvindo o rádio escuto o discurso do Paulo Brossard (à época, deputado estadual pelo RS) furioso. Ninguém diz tanta coisa assim furiosa, devia estar acontecendo alguma coisa. Ele sabia (do golpe). Aí, no dia seguinte, é que se percebe que estava em marcha o golpe. Eu me lembro que eu saí muito cedo de casa, mas estava tudo muito complicado. Cheguei no Centro (de Porto Alegre) e na prefeitura, que o prefeito era o Sereno Chaise, do PTB (partido de João Goulart e Leonel Brizola), e não tinha ninguém ali. Tinha um velho coronel, que estava na prefeitura, mas o prefeito não estava. E eu lembro que eu subi aqui a Borges (de Medeiros), dobrei na (Rua dos) Andradas e, na esquina com a rua Uruguai, encontro com um velho companheiro com uma bandeira do PTB. "Vamos resistir! Vamos resistir!" (, dizia ele). Eu brinquei com ele: tu, eu e mais quem? Não tinha ninguém, ninguém. E aí, sim, o golpe caiu na nossa cabeça. A gente sabia dessa tensão (política), mas não imaginava que o golpe estava aqui. A nossa avaliação é de que era mais uma das tantas quarteladas da nossa América Latina - uma quartelada, isso deve durar dois anos, três anos. Não era. E nós nem sabíamos que existia uma coisa chamada doutrina da segurança nacional. E a gente foi se dar conta um pouco mais adiante, porque eles improvisaram o Castello Branco (na presidência). E o Castello Branco prometia eleições em 1966. Publicamente propunha eleições. O golpe trouxe uma coisa chamada Comissão Geral de Inquérito, para investigar corrupções, etc. Então: "nós (militares) vamos limpar o País, vamos caçar e prender os corruptos, os comunistas e em 1966 nós fazemos a eleição". Essa era a pregação do Castello Branco, mas que não foi aceita pelos outros militares. E aí inventaram o tal de Colégio Eleitoral, e entronizaram o Costa e Silva (na presidência), que era um golpista número um, um grande golpista. E o Castello Branco é tirado de cena. Pouca gente fala sobre isso, de que não havia uma unanimidade entre eles (os militares).
JC - O senhor tem um destaque no resgate de refugiados políticos das ditaduras latino-americanas. Em que momento observou a urgência de realizar um movimento neste sentido?
Krischke - Logo após o golpe, começam as primeiras perseguições. E era necessário tirar pessoas do Brasil e levar essas pessoas para o Uruguai. E que pessoas eram essas? Eram dirigentes sindicais, dirigentes estudantis, políticos, deputados, militares, que, especialmente, eram pessoas do Centro e do Nordeste do País, e que não conheciam a nossa fronteira. Então, a gente tinha que criar uma rota de fuga para tirá-los. Foi o primeiro momento. Mas, em 1968, há o golpe dentro do golpe, que é o Ato Institucional Número 5, que suspende o habeas corpus, permite prender uma pessoa sem ter acesso a advogado ou familiar, censura a imprensa. Logo após o AI-5, a coisa ficou muito complicada. E depois, em 1973, há o golpe no Uruguai, em junho. Em setembro, no Chile. Aí há a necessidade de tirar companheiros do Chile e do Uruguai e trazê-los para cá. E, daqui, negociar que eles fossem para a Europa no exílio. Em 1976, golpe na Argentina. Tem que tirar gente da Argentina. E isto a gente fez sempre em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), em uma parceria para nos dar o suporte. E foi fundamental, porque o Brasil tinha uma ditadura. O refugiado, a gente acolhia e levava para o Rio, tinha que hospedar. Então, o Alto Comissariado alugava um apartamento e ia colocando as pessoas enquanto fazia o trâmite para a ida para a Europa. Se negociava: "essa pessoa aqui está sendo perseguida em razão disso aqui". Aí a Suécia (por exemplo) dizia: "sim, nós aceitamos". Ou dizia: "não, esse cara não, não aceitamos". Aí se negociava com outro país. E isso foram cerca de duas mil pessoas (resgatadas).
JC - És um defensor de que se preserve a memória da ditadura…
Krischke - É importantíssimo a gente ter claro: no Brasil não existem políticas públicas de memória. A grande vacina contra ditaduras é a memória. E, desde o processo de redemocratização, não há. E por que? Porque no Brasil não houve transição (de ditadura para democracia), houve transação. Houve um acordo, e esse acordo tem o princípio de garantir a impunidade. Ninguém no Brasil foi punido pelos crimes. Então, não se tem políticas de memória, mas tem políticas de esquecimento. E isso é muito grave, porque alguns países da região (América Latina), que viveram a mesma coisa (ditaduras), trabalharam muito nessa linha. E no Brasil, podemos notar que agora estamos falando de 61 anos do golpe. Quando fez 60 (anos), o Lula não proibiu manifestações? Por isso eu digo: nos faltam políticas públicas de memória. Mas, ao mesmo tempo, existe uma política de esquecimento, que é para garantir a impunidade. Aí, um filme (Ainda Estou Aqui), muito bem feito, traz o tema ao debate, porque internacionalmente foi reconhecido.
JC - Elabore esta questão da transação de ditadura para democracia, e não transição:
Krischke - Dizem (que a redemocratização foi em) 1985, e eu não aceito. Por que eu não aceito? Porque foi o Colégio Eleitoral que elegeu o Tancredo (Neves) foi o Colégio Eleitoral da ditadura. Estava vigente no País a Constituição de 1967, outorgada - não foi votada por ninguém. Os militares só disseram: "essa é a nova Constituição". Então, o Colégio Eleitoral elege o Tancredo, que morre e assume o vice (José Sarney), e que também foi uma irregularidade. E a Constituição era aquela da ditadura. Eu tomo como a redemocratização do País a nova Constituição de 1988, esta sim. Assembleia Nacional Constituinte amplamente discutida. Não é tão cidadã como disse o Ulysses Guimarães, tem uns detalhes muito ruins, mas ela foi votada, é legítima. Aí é que eu considero a redemocratização.
JC - Surgiram nas últimas décadas movimentos políticos no Brasil que defendem o regime militar. Como avalia?
Krischke - De repente surgem esses movimentos de ultradireita. Até um passado recente, tinha a direita, mas era tão interessante que ninguém se assumia de direita, tinham vergonha. E eram pessoas, em primeiro lugar, educadas, que dava para conversar. Trocavam ideias respeitosamente. Hoje não há diálogo. E não sei de onde brotaram tantos ultradireitistas, porque não se notava isso. E aí, na eleição de 2018, aparece essa coisa do bolsonarismo. Mas, até então, o que o Bolsonaro era? Baixíssimo clero. Como este cara conseguiu empolgar um eleitorado e, se olhar as estatísticas, jovem, e que são simpatizantes de uma coisa arcaica, e que cresceu enormemente? Às vésperas da tentativa de golpe (no 8 de janeiro de 2023), esse povo na frente dos quarteis com o braço levantado em uma saudação nazista. O que é isso? E um número expressivo, não foram dois ou três gatos pingados. Eu costumo dizer o seguinte: se o Bolsonaro morrer amanhã, o bolsonarismo não termina, porque ele cresceu a um tal nível, e as pessoas passaram a se orgulhar.
 

Perfil

Jair Krischke nasceu em Porto Alegre, em 15 de outubro de 1938. É ativista dos direitos humanos, com atuação no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai. Também foi fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), em 1979. Recebeu o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre, em 1985, a Medalha Ordem do Mérito Farroupilha, em 2004, e a Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, do Senado Federal em 2011.

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