Susana Azevedo
Vivemos um paradoxo onde acreditamos que as mulheres têm, efetivamente, a capacidade para gerenciar, mas essa crença aparece refletida só da porta de casa ‘para dentro’. Atualmente, no Brasil, 49% dos lares são chefiados por mulheres, de acordo com o Censo Demográfico 2022. Por outro lado, segundo pesquisa realizada pela Vila Nova Partners, apenas 5% das posições de CEO no Brasil são ocupadas por elas. Além disso, quando chegam às posições mais altas nas empresas, as suas gestões são mais bem avaliadas de acordo com as pesquisas. Afinal, por que não conseguimos evoluir - na velocidade que gostaríamos - na busca por mais equidade de gênero nos cargos de alta liderança?
Histórico de conquistas muito recente
Fica evidente que a questão histórica contribui significativamente para essa situação, à medida que apenas no último século, começaram a ocorrer mudanças que promoveram as conquistas legais que garantem direitos iguais a homens e mulheres. A título de exemplo, apenas em 1932 as mulheres foram autorizadas a votar, somente em 1962 puderam trabalhar sem a autorização dos maridos e apenas em 1988, menos de 40 anos atrás, a constituição brasileira reconheceu as mulheres como iguais aos homens, com direitos igualitários. O resultado é que apenas jovens da geração millennial nasceram em formal igualdade de gênero, não de fato ainda, como se pode observar pelos números sobre o mercado de trabalho.
O histórico recente de conquistas básicas das mulheres se reflete nas instituições. Muitas ainda preservam crenças e atitudes enraizadas há séculos nas organizações e famílias sobre a incapacidade das mulheres para liderar empresas. Como consequência, percebe-se a falta de adaptabilidade das organizações para atender às necessidades da maternidade, do acompanhamento das crianças em suas rotinas ou também para que os pais possam exercer a paternidade. Notamos, ainda, a desigual distribuição de atribuições na gestão dos lares, que leva a jornadas de trabalho adicionais para as mulheres. Além disso, uma vez que temos mais homens em cargos de liderança, a tendência é escolher iguais em promoções e desqualificar o estilo de liderança das mulheres, frequentemente visto como menos focado em resultados ou menos assertivo. Eles alegam que elas “não têm pulso”, “são emocionais e paternalistas”, não se dedicam ao trabalho porque estão frequentemente se ausentando para cuidar da família ou de questões da casa. Por trás disso, percebe-se que os homens podem estar começando a sentir a gradativa subida de mulheres para cargos de liderança como uma “ameaça” ao seu status quo, e que poderiam vir a perder oportunidades para as mulheres.
As mulheres ainda duvidam delas mesmas
As mulheres, por outro lado, também têm crenças que limitam o seu crescimento, entre elas não se identificarem com os padrões de liderança tradicionais, tendo uma visão mais colaborativa do trabalho e menos compartimentada. Elas têm tendência a não se candidatar e não verbalizar suas aspirações para cargos mais elevados e maiores salários, a menos que percebam que cumprem “todos” os requisitos das funções, se mantendo mais como executoras e gestoras em funções mais transacionais e menos como líderes de negócio ou em funções mais estratégicas. Ou seja, as mulheres duvidam mais das suas competências e têm tendência a não dar visibilidade ao seu trabalho, seus resultados, suas ideias e seus objetivos profissionais. Mulheres também têm maior dificuldade em lidar positivamente com o termo “ambição”, associando a “desejo de poder e controle”. A preocupação de equilibrar a vida pessoal e profissional e a carga de trabalho familiar, também pode levar as mulheres a não se expor tanto para cargos de alta liderança. Estes são apenas alguns dos fatores a serem levados em conta no contexto atual.
Como líderes, elas são mais bem avaliadas do que eles
Para evoluir mais rapidamente é necessária uma mudança desde a forma como meninas e meninos são educados, assim como na discussão ampla e implementação de processos intencionais e conscientes de integração nas organizações.
As CEOs mulheres são mais bem avaliadas pelos seus funcionários em comparação aos homens, mostra uma pesquisa da FIA Business School de 2023, que analisou respostas de mais de 150 mil funcionários de 150 grandes empresas do país. Para 50% dos entrevistados, as mulheres no cargo de presidente-executivo têm uma gestão excelente, enquanto os homens receberam a mesma avaliação por 43% dos funcionários. 79% confiam totalmente em sua CEO, enquanto esta confiança foi de 72% para as figuras masculinas. Estes dados reforçam o paradoxo do início do texto, de que as mulheres podem ser tão boas gestoras e líderes organizacionais como os homens, quando é aberta a oportunidade na organização e a mulher responde dando voz e ação às suas aspirações profissionais.
Com a chegada de mais mulheres aos cargos de alta liderança, teremos formas diferentes de atingir resultados. É na abertura para entender, aprender e integrar diferentes abordagens de gestão e liderança, que as organizações e a sociedade irão evoluir para lidar melhor com os desafios do mundo atual. Assim, temos um longo caminho pela frente e, simultaneamente, a crença de que, sim, é possível!
Coach, especialista em desenvolvimento profissional e mudanças organizacionais e sócia-proprietária da Quantum Development