Habituados a longos períodos de estiagem ao longo dos anos, os moradores de Bagé carregam em sua história lições de superação e conscientização sobre o uso da água. Desde 8 de março, o município enfrenta mais um ciclo de racionamento, relembrando os desafios enfrentados ao longo dos anos e reforçando a importância da economia desse recurso essencial.
Uma das piores secas que atingiu Bagé aconteceu em 1989. Os arquivos do Departamento de Água, Arroios e Esgoto de Bagé (Daeb), autarquia municipal que faz a gestão hídrica do município, pontuam que a falta de chuva interrompeu diversos serviços municipais e afetou drasticamente o dia a dia da população. Segundo o registro, “creches deixaram de funcionar, piscinas foram transformadas em reservatórios com a colocação de torneiras fixas”; além disso, "a rede bancária da cidade, comércio e repartições públicas reduziram seu horário de funcionamento”, pontua o órgão.
Ver essa foto no Instagram
A memória da seca de 1989 ainda é viva para muitos moradores, como a profissional de tecnologia da informação Alexsandra Meirelles, que recorda a dificuldade de sua família em conseguir água para tarefas básicas. "Minha mãe, grávida, com barrigão, lavava roupa nas pedras, e passavam cobras no meio das pernas dela", conta. Situações como essa marcaram gerações e ajudaram a moldar hábitos de consumo mais conscientes.
Hoje, mesmo após melhorias na infraestrutura de abastecimento, a população segue adotando estratégias para conviver com a escassez. Jorge Souza, aposentado, explica como sua família se adapta ao racionamento. "Possuímos reservatórios e vamos controlando os banhos, a forma de lavar os utensílios e as roupas. Procuramos utilizar a água com consciência nos dias em que ela está disponível".
Essa cultura de economia não é recente. No passado, os moradores recorriam a poços artesianos e fontes naturais para suprir as necessidades. "Toda a vizinhança procurava se ajudar. Tinha gente cavando poços, buscando água onde fosse possível", relembra Alexsandra.
No ano do pior período de seca vivido historicamente por Bagé, todos os bairros da cidade precisaram ser abastecidos com caminhões-pipa, segundo o Daeb. Naquele ano, ainda, a prefeitura buscou recursos junto à extinta Superintendência do Desenvolvimento da Região Sul (Sudesul), para a construção de uma barragem emergencial, a do Piraí. Hoje, a mesma barragem apresenta um nível 2,90m aquém do normal desde o novo período de estiagem.
Nesta segunda-feira (24), após reunião das equipes diretiva e técnica, a autarquia decidiu pela permanência do racionamento de água com duração de 12 horas, intercalando cada dia em um dos dois setores da cidade. Outra iniciativa foi a instalação de uma bomba na Avenida Santa Tecla, utilizada para regular a pressão e levar a água até regiões mais altas ou distantes. A iniciativa visa, principalmente, a melhorar o abastecimento em localidades que vinham tendo dificuldade em retomar o fornecimento de água após as horas de racionamento, como os bairros Malafaia e Ivo Ferronato, explicou a autarquia em suas redes sociais.
Em março, foram registrados, na Estação de Tratamento de Água (ETA), apenas 21 milímetros de precipitação, enquanto que a média do mês é de 116,4 milímetros. Entre fevereiro e março, o Daeb calcula que o déficit de chuvas no município ultrapassa os 200 milímetros, justificando o decreto de situação de emergência assinado pela prefeitura de Bagé em 17 de março.
Em março, foram registrados, na Estação de Tratamento de Água (ETA), apenas 21 milímetros de precipitação, enquanto que a média do mês é de 116,4 milímetros. Entre fevereiro e março, o Daeb calcula que o déficit de chuvas no município ultrapassa os 200 milímetros, justificando o decreto de situação de emergência assinado pela prefeitura de Bagé em 17 de março.
Apesar dos desafios, o exemplo de Bagé reforça a importância da consciência coletiva sobre o uso da água. Em tempos de estiagem, a solidariedade e a adaptação são fundamentais para garantir que esse recurso essencial continue acessível para todos.