Ao mesmo tempo em que tentam resgatar sobreviventes do terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Mianmar, no Sudeste Asiático, moradores e socorristas convivem com ataques aéreos realizados pelo próprio Exército. As ofensivas da guerra civil não foram interrompidas após o tremor, um dos maiores a atingir a nação, deixar mais de 1.700 mortos, segundo a junta militar que governa o país.
O Governo de Unidade Nacional, que reúne remanescentes do governo civil deposto por militares no golpe de 2021, afirmou que as milícias de oposição sob seu comando paralisarão todas as ações militares por duas semanas a partir deste domingo (30) para facilitar as operações de resgate.
Ainda há cerca de 3.400 pessoas feridas e 300 desaparecidas, de acordo com o último balanço das autoridades mianmarenses. As buscas foram temporariamente suspensas neste domingo por uma réplica do abalo com magnitude 5,1, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. O órgão americano estima que o número de vítimas do terremoto pode passar de 10 mil.
Três dias após fazer um raro pedido de ajuda internacional, o chefe do regime, Min Aung Hlaing, disse à mídia estatal que sua administração enfrenta uma situação desafiadora. Moradores relatam à agência de notícias Reuters que a assistência é escassa em áreas próximas da região de Sagaing, onde foi localizado o epicentro do tremor. "O que estamos vendo aqui é uma destruição generalizada, muitos edifícios desabaram no chão. Não recebemos nenhuma ajuda e não há trabalhadores de resgate à vista", disse o morador Han Zin.
Diante da falta de equipamentos, maquinários e socorristas, moradores de Mandalay cavavam com as próprias mãos para tentar salvar pessoas que estavam sob os escombros nas primeiras horas após o terremoto. Vizinha de Sagaing, a cidade é a segunda maior do país e também a mais atingida.
No sábado, as buscas foram reforçadas com a chegada de 82 pessoas da equipe de resgate chinesa. Índia, Malásia, Rússia, Singapura e até Tailândia, que também foi atingida pelo tremor, enviaram suprimentos e socorristas, mas há dúvidas sobre como a ajuda que foi destinada a Naypyitaw, onde vivem os membros da junta, será distribuída.
Sagaing abriga diversos grupos rebeldes. Um dos principais, o União Nacional Karen, manifestou a preocupação de que a o regime militar aplique o dinheiro recebido na guerra civil, disse o porta-voz Padoh Saw Taw Nee. Hoje, o controle de Mianmar se divide entre os militares, que governam as áreas urbanas, e as milícias rebeldes, que controlam as áreas fronteiriças.
Os Estados Unidos prometeram enviar US$ 2 milhões (R$ 11,5 milhões) em ajuda por meio de organizações de assistência humanitária baseadas em Mianmar, e disseram em um comunicado que uma equipe de resposta de emergência da Usaid, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, da qual o governo de Donald Trump tentou cortar recursos, será enviada ao país.
Agências humanitárias têm alertado que Mianmar não tem estrutura para enfrentar os impactos do desastre. Em crise política desde 2021, quando o Exército deu um golpe de Estado e depôs o governo civil eleito da líder Aung San Suu Kyi afirmando que havia fraude nas eleições, o país vive em contexto de violência generalizada e está com o sistema de saúde sobrecarregado por surtos de cólera e outras doenças.
Agências