As bebidas não alcoólicas para adultos têm ganhado destaque no mercado, seja com grandes industrias adaptando produtos ou com marcas que já surgem com esse propósito

Primeira loja física de drinks sem álcool para adultos de São Paulo aponta tendência de mercado


As bebidas não alcoólicas para adultos têm ganhado destaque no mercado, seja com grandes industrias adaptando produtos ou com marcas que já surgem com esse propósito

Sober Curious, Dry January e Sober October: talvez algum desses movimentos já tenha passado pela tua timeline nos últimos tempos. Essas iniciativas têm como objetivo engajar pessoas na redução do consumo excessivo de álcool. Essa tendência tem atraído público e despertado a atenção das marcas de bebidas, que criam alternativas para atender à crescente demanda. No Google Trends, as pesquisas por cerveja sem álcool, por exemplo, cresceram ano a ano, tendo mais relevância a partir de 2017 e dobrando até 2024. Com diferentes motivações, os consumidores têm, cada vez mais, optado por bebidas sem álcool.
Sober Curious, Dry January e Sober October: talvez algum desses movimentos já tenha passado pela tua timeline nos últimos tempos. Essas iniciativas têm como objetivo engajar pessoas na redução do consumo excessivo de álcool. Essa tendência tem atraído público e despertado a atenção das marcas de bebidas, que criam alternativas para atender à crescente demanda. No Google Trends, as pesquisas por cerveja sem álcool, por exemplo, cresceram ano a ano, tendo mais relevância a partir de 2017 e dobrando até 2024. Com diferentes motivações, os consumidores têm, cada vez mais, optado por bebidas sem álcool.
Prova disso é a atenção que grandes marcas estão dando ao tema. Em 2024, a versão zero álcool da Corona, que, no Brasil, é produzida pela Ambev, tornou-se a primeira cerveja a patrocinar os Jogos Olímpicos. Outros rótulos de gigantes também têm lançado as suas versões não alcoólicas. E a tendência não fica só nas cervejas. Os drinks sem álcool, chamados mocktails, têm marcado presença nos cardápios de bares e restaurantes
Em janeiro, São Paulo ganhou a primeira loja física de bebidas não alcoólicas. A Bankiro é uma iniciativa da Kiro, marca focada no segmento de bebidas não alcoólicas para adultos. A loja opera como uma multimarcas, em uma antiga banca de jornais, no bairro de Pinheiros. São onze marcas que compõem o mix de produtos da loja, todas focadas no segmento zero álcool. 
Entre as bebidas vendidas no espaço, estão sodas premium, tônicas, chás e versões zero álcool de gins, cerveja e bitters. Baer Mate, Bizzi, Brazô, Dádiva, Etapp, Joy, Matury, Miden, Nulla, Tüm e Wewi são as marcas que se juntaram à Kiro na iniciativa. De acordo com Roberto Meirelles, sócio da Kiro, a inauguração da loja movimentou ainda mais debates sobre o tema. "O lançamento da loja foi um baita sucesso. Viralizou nas redes sociais. Janeiro foi muito legal para nós, muitas iniciativas falando sobre o assunto, influencers, canais de mídias tradicionais. É um movimento que chegou para ficar", garante o empreendedor. 
Roberto afirma que a trajetória da Kiro, que produz um switchel - combinação entre água, suco de cana, gengibre e vinagre de maçã - começou a partir de uma percepção de mercado. "Trabalhei ao longo de oito anos em uma empresa que presta serviço para negócios do universo de alimentos e bebidas. Foi através desses estudos que identifiquei, na época, a oportunidade de um mercado de bebidas não alcoólicas para adultos. Era um mercado incipiente, isso estou falando de 2017, que vinha crescendo em outros mercados modelo e que, inevitavelmente, chegariam ao Brasil", conta. 
O empreendedor ressalta que os movimentos como o Dry January impulsionam o assunto nas redes sociais e fortalecem o debate. "São movimentos globais que convidam as pessoas a consumirem menos álcool. E também por entender sobre os malefícios do consumo excessivo do álcool, algo que, por muito tempo, tinha pouca evidência, porém, na última década, o assunto cresceu bastante e as pessoas começaram a se preocupar com o consumo excessivo de álcool", percebe Roberto, que ressalta a dificuldade de encontrar números sobre o mercado nacional. "No Brasil, é muito difícil conseguir dados claros e transparentes sobre o consumo de álcool. Sempre trabalhamos com dados fornecidos pelo Ministério da Saúde e algumas organizações como Cisa (Centro de Informação sobre Saúde e Álcool). Recentemente, ficou mais claro que determinados recortes da população, ligados à renda e à escolaridade, estão consumindo menos álcool", pontua. 
Mas a percepção de um mercado forte vai além de números. Para Roberto, o movimento crescente de grandes indústrias na direção de bebidas sem álcool é um norte. "Outra evidência foram as movimentações bastante relevantes das empresas das multinacionais, como Ambev, que começaram a se mexer de maneira bastante rápida e intensa em relação aos não alcoólicos, lançando edições não alcoólicas das suas principais marcas e também outras categorias não alcoólicas direcionadas a adultos. Essas empresas têm mais acesso a informação. Então, essa movimentação, para nós, foi um sinal muito claro de que realmente está acontecendo uma mudança de comportamento no Brasil", avalia, 
Roberto afirma que há um "cabo de guerra" entre um crescente interesse dos consumidores pela redução do consumo excessivo de álcool e uma indústria muito forte de bebidas alcoólicas. Mesmo nesse cenário, o empreendedor entende que o segmento não é mais uma tendência, e sim um mercado consolidado. "Com Kiro, percebemos muito esse movimento através das postagens que fazemos, das nossas iniciativas. É natural que exista uma reação social, afinal fomos educados desde muito jovens a consumir álcool excessivamente. Então, quando você fala mal de álcool no Brasil, existe uma resistência imediata, mas, por outro lado, tem um apoio muito forte. Muitas pessoas têm algum problema com álcool, seja pessoal ou de alguém muito próximo. É um assunto que, por mais que seja um tabu e encoberto de muitas formas, as pessoas se identificam quando você propõe uma redução do consumo excessivo de álcool", acredita. 
Com pouco mais de um mês de operação, a Bankiro já desperta interesse de outros estados brasileiros, movimento que não é descartado por Roberto para o futuro. "Hoje, a nossa operação é majoritariamente em São Paulo, mas recebemos também muitos contatos de outras regiões do País solicitando tanto que a gente abra uma banca, quanto que a nossa distribuição seja mais forte nessas regiões. Mas é legal ver que tem inúmeras marcas locais que estão oferecendo propostas não alcoólicas intensas e gostosas como uma alternativa ao consumo de álcool em diferentes regiões do Brasil", pontua.
 

'Estamos vivendo uma mudança de comportamento. Já não é mais uma tendência, é algo consolidado', afirma especialista do Sebrae-RS

O crescimento do mercado de bebidas não alcoólicas para adultos aponta que o movimento já não é uma tendência. Francine Oliveira Danigno, analista de articulação e projetos sênior do Sebrae-RS, afirma que o momento atual é de mudança de comportamento. "Era uma tendência ter produtos mais saudáveis. Passamos, agora, para um segundo momento que é a mudança de comportamento do consumidor. Subimos um degrau em relação a essa escala", afirma a especialista. 
Para ela, o processo de consolidação de uma tendência parte de sair de uma projeção de futuro para ser, de fato, algo inserido no mercado atual. "Primeiro temos uma megatrend, um olhar de tendência futurística. Depois, a gente vem para uma tendência de mercado, que é quando a gente vai ter mais bebidas não alcoólicas inseridas. E então passamos para o momento que eu acredito que é o atual, de mudança de comportamento", avalia. De acordo com a especialista, o crescimento dessa tendência ainda é reflexo da pandemia de Covid-19, quando a saúde virou pauta central para muitas pessoas. "As pessoas tiveram o olhar mais introspectivo, de olhar para a sua saúde. Consequentemente, ao olhar para a saúde, perceberam que a bebida alcoólica não é saudável. Então, as pessoas passaram a ter uma alternância; não deixaram de beber, mas passaram a beber menos, a entender que podem ter mais opções, sem deixar de curtir com os amigos e com a família", considera Francine. 
A bebida alcoólica cumpre um papel social, fazendo parte de encontros e confraternizações. No entanto, a especialista alerta que a mudança de comportamento do consumidor fez com que essa dinâmica também mudasse. Para isso, ter opções não alcoólicas em bares e restaurantes é um movimento interessante para atender essa demanda. "A bebida alcoólica tinha muito esse fator social. Hoje, as pessoas não querem deixar de curtir. Mas não querem ser sempre aquela pessoa do 'ah, mas por que tu não estás bebendo?'. Então, se ela está ali com o drink não alcoólico, ninguém vai ficar perguntando", considera Francine, destacando que os mocktails também são uma boa opção numa perspectiva financeira para os negócios. "Os drinks não alcoólicos têm uma alta lucratividade para o segmento da gastronomia para bares e restaurantes. Muitas vezes, os valores praticados no mercado são similares aos alcoólicos, mas sem a bebida", alerta.
Ainda, oferecer opções inclusivas deve estar no radar dos empreendedores e empreendedoras para que fidelizem a clientela. "Temos que sempre olhar para o nosso público. Se temos, hoje, um grupo com mudança de comportamento que já é efetiva, tem que trazer opções para o cliente na carta de drinks. Se nos pratos do restaurante têm que ter opção para vegetarianos, opções inclusivas para pessoas com restrições, também é necessário incluir na carta de bebidas itens sem álcool, porque se não a única opção é água e refrigerante, e talvez isso não agrade aquele público. Consequentemente, perde aquele cliente. Quando perdemos um cliente, não é um, é um grupo que iria juntos para determinada atividade. Normalmente, as pessoas não vão sozinhas a bares e restaurantes, elas vão entre amigos, familiares", pondera. 
No mercado gaúcho, Francine destaca a Brazô, marca de chás gaseificados saudáveis criada em 2019. No entanto, ressalta que o cenário no Rio Grande do Sul ainda está em desenvolvimento. "Ainda estamos um pouco conservadores, mas muito porque esses inputs não tem sido dados aqui no Rio Grande do Sul. Recém abriu em São Paulo, em janeiro, a primeira loja de bebidas não alcoólicas. Isso é muito novo", considera a especialista, que acredita que, em breve, os empreendedores gaúchos vão aderir em peso ao movimento. "Talvez empresários mais conservadores passem a olhar 'opa, tem alguma coisa acontecendo, por que está diminuindo minha venda de bebida'. É um movimento muito favorável quando temos essas notícias e informações de mercado disponíveis para esse segmento. É a chance do empresário tomar decisões que comecem a melhor a experiência dele", avalia. 
A especialista pontua que a inserção de empresas que já nascem com esse viés e a crescente atenção das grandes indústrias ao tema apontam para desafios diferentes no mercado. "Normalmente, as pequenas empresas, quando têm esse perfil inovador, elas nascem com um produto muito alinhado ao comportamento do consumidor. Quando falamos de uma grande empresa, embora o potencial de investimento seja muito mais elevado, é muito difícil fazer uma mudança, inserir um novo produto que tenha características diferentes. Se eu tenho uma planta fabril que vende com álcool, se for produzir sem álcool na mesma planta, pode ter contaminação, ou tem que comprar o equipamento separado, ou produzir separado. São muitos elementos para que as grandes até demorem um pouco para lançar, mas é claro que, quando elas entram no mercado, já entram estruturadas", afirma Francine, que vê com bons olhos esse movimento. "Embora elas venham a competir com as marcas pequenas e mais inovadoras, elas também promovem uma mudança de comportamento mais acelerada do consumidor, porque colocam essa bebida a um preço mais acessível, porque é o preço que elas praticam na larga escala. Acelera que mais pessoas possam experimentar. É totalmente favorável quando um grande player entra no mercado com possibilidade de produção diferente, inovador", pontua.