A Produto Nacional, que neste 2025 está celebrando seus 35 anos de existência, é uma das precursoras do reggae no Rio Grande do Sul. Ao lado da banda porto-alegrense, figuram pioneiros nomes como o de Luis Vagner, o "Guitarreiro", e as históricas bandas Motivos Óbvios e Direitos Iguais. Embora seja, no Brasil, um dos mais importantes representantes do gênero musical surgido na Jamaica, é importante salientar, porém, que a sonoridade da Produto Nacional não circunscreve-se tão somente na categoria “reggae”. Na infusão musical promovida pelo sexteto arde desde rock and roll, dub, soul, black music, hip-hop e blues, passando também por brasilidades e “gauchidades” afins incorporadas.
Desde o início de sua trajetória, o grupo formado pelos músicos Paulo Dionísio (vocal), Jorge Cidade (saxofone), Tom Junior (guitarra), João Antônio Costa (bateria), Isnard Prates (baixo) e Renato Batista (trompete) faz questão de manter como única coisa imutável em sua triunfante trajetória os eternos ideais: esperança, igualdade, fraternidade e amor. Citando o mais recente single por eles lançado, “o amor é a bússola a guiar os passos da Produto Nacional”, ressalta Prates.
Já o vocalista sinaliza que, para a banda, a palavra "sucesso" consiste em perceber a satisfação das pessoas quando então deparam-se com a música que fazem. “Sucesso é estar na estrada fazendo aquilo que mais nos dá prazer. Também é estar cantando e contando nossas vivências e se dar conta de que há muita gente, assim como nós, que não está indiferente”, filosofa Dionísio.
Tal conjunto de nobres sentimentos, a propósito, será comemorado no evento Toda Black is Beautiful: A Celebração da Música Negra, que – no dia 22 de fevereiro – reunirá no mesmo palco, além de outras atrações, a aniversariante Produto Nacional e a renomada dupla de cantoras, compositoras e instrumentistas 50 Tons de Pretas.
Nas suas mais de três décadas entre palcos e estúdios de gravação (somando, até aqui, dois álbuns no currículo e inúmeras participações em coletâneas), a Produto Nacional, que atualmente vem trabalhando no repertório de seu terceiro disco, mantém praticamente todos os integrantes advindos de sua formação original. Do alto da sabedoria de seus 77 anos de idade, o saxofonista do grupo elucida como é possível: “O segredo da boa convivência entre os integrantes da banda está em nossos laços de amizade. No final das contas, isso acaba resultando tanto na longevidade quanto na maturidade artística da Produto Nacional”, explica Cidade.
O “segredo” aludido nas palavras do instrumentista veterano igualmente vem acrescido do carinho que o sexteto colhe de seus muitos fãs ao longo da jornada musical. A radialista Danny Santos, uma dessas admiradoras, acompanha a caminhada da banda desde o início dos anos 1990. Ela conta que ouviu a Produto Nacional pela primeira vez no emblemático disco coletivo Porto Reggae – e já, de cara, soube que seria uma das bandas mais importantes do Brasil. “O surgimento da Produto Nacional naquele contexto foi algo que soou extremamente revigorante para a renovação do gênero”, considera Danny.
Com marcante passagem pela Motivos Óbvios, da qual foi vocalista, a Grande Dama da música preta gaúcha Marietti Fialho diz-se cúmplice da Produto Nacional em uma “vida infinita de lutas”, as quais seguem ainda partilhando. Na concepção da cantora e compositora, “Produto Nacional” trata-se de um nome cujo significado, sobretudo, explica-se em uma só palavra: resistência. “Nos últimos 35 anos, inúmeras bandas e artistas deixaram de existir, porém, a Produto Nacional manteve-se firme e forte”, ressalta. Mesmo tendo de enfrentar todas as inerentes dificuldades e intempéries as quais surgem no meio do caminho, diante disso tudo, ressalva Marietti, pelo menos uma coisa é mais do que certa: “Nada e nem ninguém pode parar a Produto Nacional em seus nobres desígnios”. E que assim seja.
A mão da esperança

No álbum 'A mão do justo', a Produto Nacional milita contra os preconceitos e a favor de causas sociais
Divulgação/JCAs 14 faixas que integram o repertório de A mão do justo, álbum da Produto Nacional lançado pelo selo Antídoto em 2002, não só emanam vibrações positivas e comunicam palavras de protesto em suas letras como também trazem musicalmente o pop e a contundência do rock’n’roll.
No hit Esperança, que leva a rubrica poética do cantor e compositor Antônio Gedair (o “Geda”), a palavra-chave é “perspectiva”. Assim versa a letra: “Quando você estiver sozinho/ e quando te apertar o coração/ quando der um blecaute/ e você nada ver/ então lembre-se que a esperança/ é a última que morre”.
Fundador das pioneiras e combativas Direitos Iguais e Motivos Óbvios, Geda (que em breve irá lançar um single intitulado Montanha) define “esperança” como um sentimento que envolve todos os seres humanos em situações sobre as quais não se tem domínio. “A esperança é essa confiança, essa crença que nos move no dia a dia e sem a qual não haveria possibilidade nem de se sonhar ou ir além”.
Também de autoria de Geda, no blues Lamento (Pessoas sem nome) os solos e riffs de guitarra de Tom Jr. se compadecem do desassistido destino dos indigentes: “Pessoas sem nomes/ atiradas pelas calçadas/ crianças com fome”.
No hit Esperança, que leva a rubrica poética do cantor e compositor Antônio Gedair (o “Geda”), a palavra-chave é “perspectiva”. Assim versa a letra: “Quando você estiver sozinho/ e quando te apertar o coração/ quando der um blecaute/ e você nada ver/ então lembre-se que a esperança/ é a última que morre”.
Fundador das pioneiras e combativas Direitos Iguais e Motivos Óbvios, Geda (que em breve irá lançar um single intitulado Montanha) define “esperança” como um sentimento que envolve todos os seres humanos em situações sobre as quais não se tem domínio. “A esperança é essa confiança, essa crença que nos move no dia a dia e sem a qual não haveria possibilidade nem de se sonhar ou ir além”.
Também de autoria de Geda, no blues Lamento (Pessoas sem nome) os solos e riffs de guitarra de Tom Jr. se compadecem do desassistido destino dos indigentes: “Pessoas sem nomes/ atiradas pelas calçadas/ crianças com fome”.
A produção de A mão do justo ficou aos cuidados do pelotense Ricardo Vidal, que trabalhou em discos de bandas como O Rappa e Os Paralamas do Sucesso. Em estúdio, a Produto Nacional contou com préstimos vindos do músico Jorginho do Trompete, na criação dos arranjos de metais em Lá no gueto e Nau dos insensatos.
No álbum, a Produto Nacional milita contra os preconceitos e a favor de causas sociais em canções como Circo, Zé Povo, Não dá nada e Lá no gueto. A ideia do solo, explica o guitarrista da banda, surgiu a partir de influência de Vidal, que sugeriu um “tensionamento” no final da música: “Após eu ter tocado uma diária de riffs, o solo teve sua gravação na íntegra e sem cortes”, comenta Tom Junior.
A música Oprimidos e opressores (e também, de certa forma, Nau dos insensatos) alude à máxima “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, passando a mensagem de que poucos são os opressores ao passo que tantos outros são os oprimidos: “Quando um dia/ os oprimidos se voltarem/ contra seus opressores/ nada os poderá deter”.
Dentre os princípios que dão fundamento às canções da Produto Nacional, está a propagação dos ideais de conscientização e luta social. Mas isso não significa que as músicas do álbum de 2002 não possuem acento pop. As faixas Sobre o tempo e Circo (que cita Bob Marley e Bedeu) comprovam a inegável aderência do repertório.
Na letra de Positiva dub, a banda elencou alguns gêneros musicais que estão incorporados em sua receita: “Cantarolando assim/ um reggae/ um hip-hop/ um pop/ um rock/ um samba/ uma balada”. É com inata brasilidade, porém, que a Produto Nacional fez sua música ressoar com altissonância no álbum A Mão do Justo. Nas estrofes da canção Yuka bazuca (na qual o fundador do Rappa, Marcelo Yuka, versejou longo depoimento), os músicos do grupo reafirmaram suas origens brasileiras: “Esse país é um país continental/ e você viajar pelo Brasil/ é viajar por várias nações diferentes/ mas existe uma coisa invisível/ que é ser brasileiro/ e que dá o maior orgulho à gente/ a gente é uma banda multirracial”.
A música Oprimidos e opressores (e também, de certa forma, Nau dos insensatos) alude à máxima “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, passando a mensagem de que poucos são os opressores ao passo que tantos outros são os oprimidos: “Quando um dia/ os oprimidos se voltarem/ contra seus opressores/ nada os poderá deter”.
Dentre os princípios que dão fundamento às canções da Produto Nacional, está a propagação dos ideais de conscientização e luta social. Mas isso não significa que as músicas do álbum de 2002 não possuem acento pop. As faixas Sobre o tempo e Circo (que cita Bob Marley e Bedeu) comprovam a inegável aderência do repertório.
Na letra de Positiva dub, a banda elencou alguns gêneros musicais que estão incorporados em sua receita: “Cantarolando assim/ um reggae/ um hip-hop/ um pop/ um rock/ um samba/ uma balada”. É com inata brasilidade, porém, que a Produto Nacional fez sua música ressoar com altissonância no álbum A Mão do Justo. Nas estrofes da canção Yuka bazuca (na qual o fundador do Rappa, Marcelo Yuka, versejou longo depoimento), os músicos do grupo reafirmaram suas origens brasileiras: “Esse país é um país continental/ e você viajar pelo Brasil/ é viajar por várias nações diferentes/ mas existe uma coisa invisível/ que é ser brasileiro/ e que dá o maior orgulho à gente/ a gente é uma banda multirracial”.
Bedeu no comando

Precursor do suingue e samba rock do Sul, Jorge Moacir da Silva (Bedeu) assinou a produção do primeiro disco da banda, intitulado 'Produto Nacional'
ACERVO PESSOAL ALEX MARX/DIVULGA??O/JCNo primeiro álbum da Produto Nacional, o grupo contou com produção do célebre cantor e compositor Bedeu. O autointitulado disco – lançado em 1998, pela gravadora Atração Fonográfica – reúne, entre suas 14 faixas, músicas como Nação, Negritude gato, O bruxo e Incerto jazz.
Espírito dos Lanceiros
Primeiro CD solo do vocalista Paulo Dionísio, 'O espírito dos Lanceiros' foi dirigido e arranjado por Luis Vagner
IRENO JARDIM/DIVULGA??O/JCEm sua primeira incursão solo, o vocalista e letrista Paulo Dionísio faz um tributo aos atraiçoados Lanceiros Negros (os guerreiros negros que lutaram na Guerra dos Farrapos, mortos no episódio conhecido como Massacre de Porongos).
Intitulado O espírito dos Lanceiros, o álbum reúne canções como Asas do sorriso, Dreadlock e Vibrações positivas. Derradeira produção de Luis Vagner, o disco, além da homenagem "à memória dos ancestrais", nas palavras de Dionísio, passou a ser construído com “várias mãos e corações”. "O espírito dos Lanceiros apresenta minhas influências, meus pensamentos e meus sentimentos. Ali está o compositor, o cantor, e o ser humano Paulo Dionísio”, define o artista.
O álbum traz 11 composições de autores diretamente ligados a Dionísio por laços de amizade, admiração e respeito como Geda, Silvio Oliveira, Raggamano Koyah e o já citado Luis Vagner (que também assina a direção musical e arranjos).
Fauzi Beydoun (Tribo de Jah), Ras Bernardo (primeiro vocalista e fundador da banda Cidade Negra) e Celso Moretti fazem participação especial em três faixas do álbum. Para o produtor-executivo do disco, Claudiomar Carrasco, duas são as importâncias fundamentais contidas em O Espírito dos Lanceiros. Uma delas, aponta ele, seria o fato histórico (e, nas suas palavras, a “boa sorte”) de poder-se contar com a luminosa presença de Luis Vagner no primeiro disco solo do Paulo Dionísio. “Já a outra é a possibilidade de resgate que essa obra musical possui, seja tanto para fazer o resgate quanto para prestar homenagem à ancestralidade e à memória dos heroicos Lanceiros Negros", desfecha Carrasco.
Intitulado O espírito dos Lanceiros, o álbum reúne canções como Asas do sorriso, Dreadlock e Vibrações positivas. Derradeira produção de Luis Vagner, o disco, além da homenagem "à memória dos ancestrais", nas palavras de Dionísio, passou a ser construído com “várias mãos e corações”. "O espírito dos Lanceiros apresenta minhas influências, meus pensamentos e meus sentimentos. Ali está o compositor, o cantor, e o ser humano Paulo Dionísio”, define o artista.
O álbum traz 11 composições de autores diretamente ligados a Dionísio por laços de amizade, admiração e respeito como Geda, Silvio Oliveira, Raggamano Koyah e o já citado Luis Vagner (que também assina a direção musical e arranjos).
Fauzi Beydoun (Tribo de Jah), Ras Bernardo (primeiro vocalista e fundador da banda Cidade Negra) e Celso Moretti fazem participação especial em três faixas do álbum. Para o produtor-executivo do disco, Claudiomar Carrasco, duas são as importâncias fundamentais contidas em O Espírito dos Lanceiros. Uma delas, aponta ele, seria o fato histórico (e, nas suas palavras, a “boa sorte”) de poder-se contar com a luminosa presença de Luis Vagner no primeiro disco solo do Paulo Dionísio. “Já a outra é a possibilidade de resgate que essa obra musical possui, seja tanto para fazer o resgate quanto para prestar homenagem à ancestralidade e à memória dos heroicos Lanceiros Negros", desfecha Carrasco.
A Produto é Rock

Grupo de reggae foi laureado em 2002, com o Prêmio Açorianos de Música na categoria Pop/Rock
ROGER GLOEDEN/Divulgação/JCQuando da divulgação dos discos (obtidos mediante votação feita com um grupo formado por uma centena de curadores), que passaram a constar em destaque no livro de jornalismo e artes gráficas 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho: Influências e Vertentes, alguns títulos escolhidos no pleito ocasionaram debates que literalmente inflamaram as redes sociais.
A presença, nesta obra, de A mão do justo (assim como também discos de artistas, entre outros, como Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Vitor Ramil) foi uma das que teve sua inclusão posta em questionamento. Na concepção de algumas pessoas, o segundo álbum lançado pela Produto Nacional não poderia ser erigido ao estatuto artístico categorizado como “rock”.
A história, porém, oferece contundentes exemplos de como ao longo dos anos o rock'n'roll e, de igual maneira, seus inúmeros subgêneros (do The Clash ao Bad Brains e do Sublime ao The Police, passando por Rolling Stones e Led Zeppelin), ao longos dos anos – em muitas das transformações estéticas pelas quais o gênero passou – embebeu-se da típica sonoridade jamaicana. No rock, a lista de nomes que tomaram dessa fonte é literalmente interminável.
Senão, vejamos. Bob Marley, em seu platinado álbum Rastaman vibration, por exemplo, fez a gravação do reggae-rock Roots, rock, reggae (com participações de Steven Tyler e Joe Perry, do Aerosmith). E, dois anos depois disso, o jamaicano Peter Tosh juntou-se ao inglês Mick Jagger na versão que, juntos, fizeram para (You Gotta Walk And) Don't Look Back, canção do grupo vocal Temptations (um dos mais bem-sucedidos a gravar para a Motown Records). Só para ficar aqui nesses dois "totens" da música identificada como reggae.
O guitarrista da Produto Nacional (Tom Junior) autodefine-se como "um apaixonado pelo som da guitarra", em suas mais variadas vertentes. Quanto à discussão a respeito de A mão do justo (laureado em 2002, com o Prêmio Açorianos de Música na categoria Pop/Rock) ser ou não ser um “disco de rock”, ele cita o nome de três guitarristas cuja técnica e estilo o influenciaram, mostrando que o som do instrumento pode tanto suave e técnico quanto roqueiro e suingado. “Com os norte-americanos George Benson e Robert Cray e, por outro lado, com o bageense Luis Vagner eu aprendi que pelo simples fato de se tocar guitarra e também por conta da escala pentatônica, automaticamente já se é um 'roqueiro'”, ilustra.
Tom Junior diz, ainda, ter aprendido que o mais importante, sobretudo, é que o instrumentista desenvolva uma linguagem própria. Na busca por identidade sonora, uma de suas motivações consiste na expressão de seus sentimentos através dos riffs. “Todo guitarrista, inevitavelmente, vai debater com ‘colorida’ e roqueira escala pentatônica. Tal ligação é ancestral e mexe com a memória sentimental e sonora de uma busca pela sobrevivência e pela liberdade. Uma postura rebelde com linguagem sonora simples e direta. Isso é puro rock'n'roll”, defende Tom Junior.
Resistência e produção musical
"Trinta e cinco anos de carreira, dois discos e a banda que mais representa o que é ser negro em Porto Alegre, capital mais ao Sul do Brasil. Se me coubesse resumir a trajetória da Produto Nacional, seria essa a minha descrição. Claro, essa é uma perspectiva pessoal, mas porque eu enxergo isso daqui de onde olho? Pois bem, vamos lá, me acompanhe.
A Produto Nacional iniciou sua trajetória em 1980 e já misturava elementos de outros estilos musicais ao seu reggae, como jazz, samba, suingue e rock, ou seja música negra. Sonoridades que as comunidades negras da cidade conheciam bem, mas poucos artistas gaúchos negros se destacavam fora dessas comunidades.
Na minha juventude, nos anos 1990, eu encontrava a mesma galera no samba, em shows de rap, nas rodas de hardcore, nas escolas de samba e nos shows de reggae. A mesma galera preta. Mas em alguns lugares parece que nunca estivemos, ou apenas nós lembramos que estivemos lá. A Produto Nacional com sua sonoridade circulou por vários lugares, mas parece que Porto Alegre sempre reduz os espaços por onde a banda merece ser lembrada, ou como ser lembrada (porque lembrá-la apenas como um grupo de reggae é reduzir seu papel na música gaúcha).
Outra coisa a se pensar é o fato do conjunto ter lançado dois ótimos discos, porém apenas dois álbuns em uma trajetória tão longa – o que também é representativo das dificuldades de produção de um coletivo formado por músicos negros de periferia, com trabalho autoral e altamente politizado. Ainda por cima, com letras que versam sobre temas que muita gente não quer conversar no Rio Grande do Sul, como a presença negra, a ancestralidade negra e a luta antirracista.
Falando em ancestralidade, a banda teve seu primeiro disco produzido pelo saudoso Bedeu, grande figura do suingue (ritmo afro-gaúcho), outra característica do que é ser negro em Porto Alegre: a gente consegue identificar nossas raízes e nossa cara na formação cultural da cidade e do Estado, e cultiva, às vezes inconscientemente, essa cultura.
E por falar em construir e adaptar tradições, os churrascos de domingo lá em casa por muito tempo foram ao som de A mão do justo, segundo disco do grupo, de 2002, que é um dos melhores álbuns já lançados pelos pagos gaúchos. Misturando de forma vibrante a base do reggae jamaicano, adaptado ao caldo cultural brasileiro, uma “pesada de mão” nas guitarras e letras certeiras, é um petardo atrás do outro. Disco definitivo para consolidação de um estilo próprio e marcante, e de uma outra constatação: é com certeza uma das grandes bandas nacionais. Mas o Rio Grande do Sul tem dificuldade de nos ver e nos ouvir, assim como tem dificuldades em ouvir a Produto Nacional (que sintetiza muito a resistência cultural negra gaúcha e seus repertórios de luta cotidiana se mantendo na ativa, por mais que alguns neguem sua existência, não a vejam ou não a queiram escutar).
A banda vai seguir com o trabalho magnífico já registrado, com novos lançamentos e pelos palcos em alto e bom volume a denunciar e combater as desigualdades do Rio Grande do Sul e do Brasil. Mas, como já afirmei, essa é a minha perspectiva – e não posso falar por todas as pessoas negras da cidade de Porto Alegre – pois, assim como a Produto Nacional, a comunidade negra porto-alegrense é diversa e tem opinião e identidade própria."