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Publicada em 01 de Abril de 2025 às 18:08

Diálogo entre joalheria e o artesanato Mbyá Guarani marca exposição gratuita no Parque da Redenção

Realizada pelo escultor Cesar Cony e um grupo de artesãos da aldeia Tekoá Jataí',t  a mostra 'Mbyá Guarani, estamos aqui!' terá tenda instalada no Parque Farroupilha

Realizada pelo escultor Cesar Cony e um grupo de artesãos da aldeia Tekoá Jataí',t a mostra 'Mbyá Guarani, estamos aqui!' terá tenda instalada no Parque Farroupilha

Egídio Pandolfo/Divulgação/JC
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Adriana Lampert
Adriana Lampert Repórter
A partir deste sábado (5), uma exposição marcada pela originalidade de traçar um diálogo entre a joalheria desenvolvida pelo escultor Cesar Cony com a ancestralidade do artesanato Mbyá Guarani deverá chamar a atenção do público que circular pela avenida José Bonifácio, em Porto Alegre. Produzida pelo artista em parceria com artesãos e artesãs da aldeia Tekoá Jataí'ty, a mostra – intitulada Mbyá Guarani, estamos aqui! – poderá ser visitada gratuitamente todos os dias, das 9h às 17h, em uma tenda localizada junto ao Monumento ao Expedicionário, no Parque Farroupilha (mais conhecido como Parque da Redenção). O projeto é resultado de uma troca de vivências e de intervenção artística, realizadas pelo grupo ao longo dos últimos dez meses, e conta com recursos da Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), do Ministério da Cultura (MinC) repassados pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac/RS). 
A partir deste sábado (5), uma exposição marcada pela originalidade de traçar um diálogo entre a joalheria desenvolvida pelo escultor Cesar Cony com a ancestralidade do artesanato Mbyá Guarani deverá chamar a atenção do público que circular pela avenida José Bonifácio, em Porto Alegre. Produzida pelo artista em parceria com artesãos e artesãs da aldeia Tekoá Jataí'ty, a mostra – intitulada Mbyá Guarani, estamos aqui! – poderá ser visitada gratuitamente todos os dias, das 9h às 17h, em uma tenda localizada junto ao Monumento ao Expedicionário, no Parque Farroupilha (mais conhecido como Parque da Redenção). O projeto é resultado de uma troca de vivências e de intervenção artística, realizadas pelo grupo ao longo dos últimos dez meses, e conta com recursos da Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), do Ministério da Cultura (MinC) repassados pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac/RS). 
Composta por 35 obras – sendo 19 esculturas de animais feitas (pelos indígenas) com madeiras de erva-mate e corticeira, fibras de taquara, latão e ferro, e adornadas (pelo joalheiro) com pedras preciosas; uma escultura em bambu com detalhes em prata; e 15 joias de prata (algumas dessas, moldadas em galho de bambu) assinadas por Cony (inspirado nas peças criadas pelos artesãos) –, a exposição é uma interface entre memória e artes visuais, cujo objetivo é "despertar uma nova percepção sobre a cultura dos povos indígenas", destaca o artista. Ele lamenta que, ainda nos dias de hoje, esse tipo de artesanato não seja compreendido por "sua potência criativa e espiritual" fora do território da aldeia.
"A grande maioria das pessoas costuma ver os bichos em madeira criados pelo povo Guarani como meros souvenirs", avalia Cony. "No entanto, o artesanato Guarani representa a conexão entre natureza e espiritualidade, revelando uma crença e uma cadeia de sabedoria, que ainda não foi  assimilada pela sociedade. Nesses objetos, cada animal representado tem um sentido espiritual que guia os indígenas", explica. "A águia, por exemplo, significa coragem e força; a cobra é quem mostra o caminho (o cuidado de onde se vai pisar); a onça é guardiã da natureza e protetora dos espaços; a coruja é o mensageiro que avisa durante a noite, e o tamanduá aponta o território (com o rabo em formato de árvore, mostra que a natureza é de paz", emenda o artista.
Residente no município de Farroupilha, o joalheiro e escultor nascido em Porto Alegre conta que se aproximou dos integrantes da aldeia Tekoá Jataí'ty a partir da interlocução de um amigo seu, o professor Gustavo da Conceição Andrade – que leciona na escola daquele povoado. Localizada na zona rural de Viamão, a área de terra indígena Guarani foi o ambiente escolhido para o desenvolvimento do projeto. No local, Cony contou com o apoio do cacique Cláudio Vherà mirim e a parceria dos artesãos Vherà guyra' (que teve forte envolvimento com o projeto e realizou as obras em madeira), Vherà mirim (autor das peças em taquara) e Karai Nheri (autor de um banquinho esculpido com imagem de animais), além do historiador e professor João Batanolli Karaí Tupã (amigo dos Guaranis há mais de 20 anos, e que assina os textos explicativos da Mostra). 
Além da escrita (em Guarany e português) que irá explanar cada uma das obras, a exposição possui recursos de acessibilidade. "Ao lado de cada trabalho haverá QR-Codes com audiodescrição para PcDs (pessoas com deficiência)", sinaliza Cony. Ele destaca, ainda, que a Mostra promoverá visitas orientadas e táteis, mediante agendamento por email (milpalavras@milpalavras.net.br). "A exposição também está aberta à visitação de escolas. Também neste caso, o contato para agendamento deve ser feito por email (ludicaeducacaoelinguagem@gmail.com). Imitando uma galeria, com direito a iluminação e cubos com as peças expostas, a tenda instalada no Parque da Redenção deve encantar os visitantes com esculturas de águias, jacarés, tucanos, onças, tamanduás, passarinhos, corujas e capivaras em diversos tamanhos. 
"Uma das obras tem 3 metros", diz Cony. "Eu fiz essa escultura em ferro, toda recoberta com fibra de taquara – que é um material muito utilizado na cestaria Guarani", observa. Uma águia de quase um metro de altura, esculpida em madeira de erva-mate e espatulada a ferro quente, com olhos moldados em citrino, bico e crista de latão envernizado e pedras de zircônia no peito também estará entre as obras. Todas elas contam com aplicação de das técnicas da joalheria, com detalhes em prata, pedras de rubi, ametista, topázio azul, turquesa, turmalina rosa, citrino, zircônia, crisoprásio, rubelita, peridoto e latão envernizado.
Autodidata, há mais de 40 anos, o joalheiro e escultor comenta que em sua trajetória tem se dedicado a fundir, laminar e dar forma a metais nobres, gemas e materiais alternativos. O resultado do processo de produção é uma estética com "forte" componente tridimensional e de diálogo com diferentes culturas. Um de seus projetos, Joias da imigração (2018) reunia fragmentos de objetos produzidos por imigrantes italianos transformados em joias-esculturas.

Já os Mbyá Guarani formam um conjunto de populações de matriz cultural Tupi, especificamente vinculados aos povos Tupi-Guarani. Somando 185 pessoas pessoas (sendo 95 crianças) desta etnia, a aldeia Tekoá Jataí’ty tem mais de 50 anos, segundo o cacique Cláudio Vherá Mirim. O líder indígena de 28 anos conta que 34 famílias habitam o local rico em fauna e flora. Trabalhando com povos originários pela primeira vez, Cony declara que o projeto foi além de uma parceria artístico-cultural. "Me tocou profundamente a forma de vida deles: eles respeitam as crianças (jamais pedem para uma delas levantar para um adulto sentar, por exemplo), são todos tranquilos e têm uma relação com a natureza que é muito interessante. No dia a dia deles, a preservação ao meio ambiente é uma verdade, e não apenas um discurso. Além disso, eles falam baixo, são muito espiritualizados; e vivem em paz e aceitação da realidade", comenta o artista. 
Não à toa, a convivência com os Mbyá Guarani rendeu outros frutos. Além da Mostra Mbyá Guarani, estamos aqui!', o projeto do artista em parceria com os artesãos ainda conta com outras duas ações no Parque da Redenção: na data da abertura oficial da Mostra (neste sábado), às 10h, o público poderá assistir a uma apresentação do coral de crianças e adultos da aldeia Tekoá Jataí´ty; enquanto no sábado do 19 de abril (Dia dos Povos Indígenas), no mesmo horário acontecerá uma roda de conversa com lideranças indígenas Guarani da Região Metropolitana de Porto Alegre. ⁠Após a temporada na Capital, a exposição Mbyá Guarani, estamos aqui! será exibida no Centro Cultural Ordovás, em Caxias do Sul, no período de 24 de abril a 18 de maio.

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