A estrada era longa até Marcelino Ramos. Naquelas 7 horas de viagem, eu e meu pai colocamos todos os assuntos em dia. E também resolvemos algumas diferenças. Os mais de 400 quilômetros foram divididos entre paradas para lanches e até pequenas aulas de direção na estrada para mim.
Fiquei na pequena cidade, onde morava um primo, enquanto meu pai fazia toda a Região Norte em campanha para o governo do Estado. Éramos muito ligados ao partido. Meu pai, que havia trabalhado com Brizola, ainda que isto tivesse lhe custado algumas prisões durante o período de ditadura, nunca deixou de colaborar numa boa campanha política. E aquela prometia! Collares tinha a real possibilidade de chegar ao Piratini, como o primeiro negro e o primeiro pedetista a subir as escadas do palácio na praça da Matriz.
Senti não poder percorrer todas as cidades, afinal, eu já havia sido picada pela mosca da política. O combinado é que, na volta, poderíamos acompanhar a caravana por algumas cidades até Porto Alegre.
O trajeto foi divertido. A caravana era recebida nas cidades com grupos festivos. E Collares recebia presentes de todos os tipos. As pessoas tinham fascinação por aquele homem, e isso me encantava.
O trajeto foi divertido. A caravana era recebida nas cidades com grupos festivos. E Collares recebia presentes de todos os tipos. As pessoas tinham fascinação por aquele homem, e isso me encantava.
Entre uma das cidades, não lembro qual, e Porto Alegre, o candidato resolveu vir no nosso carro. Ele e meu pai tinham que discutir alguns aspectos do programa de governo. Nessa localidade, ele recebeu de presente uma caixa de bombons. Mas não uma caixa qualquer. Os moradores recolheram chocolates de toda a região e colocaram em uma caixa enorme, que cabia, talvez, uns 300 ou 400 bombons.
Collares entrou no carro e colocou a caixa – aberta – no banco de trás, dividido por mim e uma tia que voltava conosco de Marcelino Ramos. “Cuida disso aqui pra mim, guria?”, me disse, com o meu pronto comprometimento.
A viagem era longa. Imagina se aquela guria, gulosa, iria se conter. Sob os olhos censuradores da minha tia, peguei um e abri com todo o cuidado para que a embalagem plástica não fizesse barulho. De início, a intenção era de que seria apenas um. Mas, não, foram dois, três, quatro, e quantos puderam ser abertos sem que ninguém notasse.
Ao chegarmos em Porto Alegre, na rua Ivo Corseuil, onde ele morava à época, descemos do carro, nos despedimos, e Collares deu de mão na caixa. Antes de entrar em casa, virou-se e, com um olhar cúmplice, piscou o olho e me disse: “Podes pegar um, guria. Eu deixo”.
Num misto de constrangimento e cumplicidade, aprendi que nunca será possível enganar um bageense. E dali trouxe a compreensão de que homens tidos como guapos, fortes, podem ser menos duros do que aparentam. E que esta armadura, por mais que lhes seja eficiente nas batalhas políticas da vida, é preenchida com a mais pura sensibilidade e sutileza.