Por certo a leitura de um texto provoca a imaginação e, dependendo da qualidade literária do autor, pode ser altamente impactante. Não se pode deixar de reconhecer, por outro lado, que assistir a um texto dramaticamente apresentado num palco produz fortes resultados emocionais, sobretudo se levarmos em conta um público ainda pouco acostumado à experiência teatral. Neste sentido, a luta contra a escravidão no Brasil, desde cerca de 1860 até a concretização do 13 de maio de 1888, teve, no teatro, ou melhor dizendo, na dramaturgia, um aliado muito efetivo
É esta análise que João Roberto Faria, professor e pesquisador da USP, apresenta ao leitor interessado, em seu alentado livro (414 páginas!) Teatro e escravidão no Brasil, resultado de uma bolsa de estudos que ele desenvolveu, mediante localização de textos da dramaturgia do século XIX que tivessem, como tema central ou periférico, a questão da escravidão e sua emancipação. O livro é, acima de tudo, o trabalho de um erudito, no sentido do pesquisador paciencioso, que vai o mais longe possível à busca das fontes necessárias para discutir o tema escolhido. Mas, ao mesmo tempo, seu texto é o de um divulgador, com uma linguagem muito simples e, por isso mesmo, as centenas de páginas são lidas não com enlevo, que o tema não permite, mas com interesse permanente. Para isso, além da linguagem, ajuda também a própria organização do livro, que começa acompanhando a própria história do teatro e da dramaturgia nacionais, desde a figura de Martins Pena, passando pelo Conservatório Dramático (onde atuou, dentre outros, Machado de Assis, com seus pareceres bastante conservadores), focando-se, depois, as peças produzidas no teatro romântico e realista, quando então faz uma cuidadosa seleção de autores que, mais ou menos significativamente, preocuparam-se com o tema e produziram alguma obra a respeito.
João Roberto Faria é especialista no teatro e nas dramaturgias brasileiras romântica e realista. Sua tese de doutorado estuda as peças dramáticas de José de Alencar. Mais adiante, ele escreveu cuidadoso livro a respeito dos pareceres de Machado de Assis no Conservatório, que era o instrumental censorial por definição, escondendo-se por trás da estética para coibir eventuais abusos ideológicos, como fica evidente nos episódios de interdição de peças que tinham como tema a escravidão no Brasil, sobretudo quando o escravo ou ex-escravo pretendia casar com a mocinha branca, algo intolerável na sociedade escravocrata da segunda metade do século XIX, mesmo para alguns que defendiam o fim da escravidão no império.
A obra de João Roberto Faria, depois, amplia-se pela dramaturgia antiescravista nas províncias, iniciando-se justamente pelo Rio Grande do Sul de Apolinário Porto Alegre, autor de obras como Benedito, Mulheres e Mateus, Apolinário foi fiel ao ideário do Partenon Literário e denunciou veementemente as condições da escravidão, com destaque para o estupro das negras por parte dos homens brancos.
O excelente trabalho inclui dois textos muito interessantes, um sobre A Cabana do Pai Tomás nos palcos brasileiros, pois a influência foi enorme, e outro a respeito de textos de dramaturgos franceses e portugueses antiescravistas, que chegaram a ser montados nos teatros brasileiros, muito especialmente no Rio de Janeiro, mas também em Salvador, São Paulo, no interior paulista ou em outras províncias, muitas vezes através de excursões de grupos dramáticos estrangeiros, outras, em iniciativas dos estudantes, sobretudo de Direito, que se organizavam, em grupos amadores para manter a luta em defesa dos negros escravos. Interessante observar-se que boa parte destes espetáculos culminava na entrega de cartas de alforria, dependendo seu número da disponibilidade financeira da sociedade literária que patrocinava a récita.
No momento em que a posse de Donald Trump, nos Estados Unidos, reacende este tipo de preconceito que, aliás, também permanece no Brasil, é importante a gente ler uma obra que relembra como a emancipação de maio de 1888 foi uma vitória, sob um ponto de vista, mas também uma derrota, bastando observar-se a condição do cidadão negro ainda hoje na sociedade brasileira.