Entre o entusiasmo dos jurados do Festival de Cannes, que lhe outorgaram o Prêmio do Júri e de interpretação feminina, dividido entre as quatro atrizes principais, e o ódio despertado no México, onde tem sido acusado de falsidades, Emilia Pérez, o novo filme do francês Jacques Audiard, não deixa de ser um trabalho que se afasta de um cotidiano no qual predominam filmes muito distantes de propostas inovadoras. Em primeiro lugar, trata-se de um musical, gênero que tradicionalmente é associado à comédia, o que não significa uma diminuição de sua importância, haja visto a presença de obras como O pirata, Sinfonia de Paris e Cantando na chuva, isso para não falar de West side story, um drama do começo ao fim, tendo por base Romeu e Julieta. Por outro lado, usar palavras e música para satirizar valores contemporâneos não é propriamente uma novidade. Muito antes de o cinema ter sido inventado, em 29 de janeiro de 1728, estreava em Londres A ópera dos mendigos, uma sátira de John Gay à aristocracia da época e que tinha como alvo a ópera italiana, que então predominava nos palcos londrinos. A música foi escrita por Johann Pepusch, com referência a canções populares. Dois séculos mais tarde, em 31 de agosto de 1928, começava a carreira da peça musical A ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht (texto) e Kurt Weil (música), uma versão moderna da obra de Gay e Pepusch. Em 1931, houve o primeiro encontro com o cinema, em uma versão dirigida por G. Pabst. Uma nova versão do tema aconteceu no Brasil, em 1978, quando Chico Buarque de Holanda realizou uma nova versão, com o título de A ópera do Malandro, dirigida no palco por Luís Antonio Martines Correa. No ano de 1985, a peça de Chico foi adaptada ao cinema por Ruy Guerra. Audiard, na sua crítica ao mundo moderno e a violência praticada, utilizou como base para seu musical um romance do francês Boris Razon, no qual a advogada encarregada do caso procura auxílio lendo a obra de Fernando Pessoa.
Declarações desastradas de uma das atrizes e algumas entrevistas do diretor têm prejudicado nestes dias a carreira do filme e atuado contra uma possível vitória no Oscar, premiação à qual a obra concorre em várias categorias. Mas seja qual for o futuro, o filme merece, sem dúvida, atenção. São apenas superficialidades discussões sobre sotaques e o fato de o filme ter sido realizado fora do México, com exceção de algumas tomadas. A escolha feita por Audiard pode ser defendida pelo fato de o país ter sido assolado nos últimos anos pela ação de narcotraficantes, com resultado assombroso de mortes e desaparecimentos. Mas a ação dos cartéis não é vista por Audiard apenas como uma das características do mundo moderno. Bem mais do que isso, o cineasta procura ver nela a expressão definitiva da crise moderna. O filme não faz a habitual confusão entre causa e efeito. Mergulha no oceano que abriga frustrações e dores causadas por uma realidade devastadora, destruidora de sonhos e fantasias. Talvez o autor do livro original tenha escolhido como referência principal o poema Datilografia, de Pessoa, com seus castelos destruídos, peregrinações interrompidas, imagens apagadas. Ao se aproximar de tal realidade, ora recorre a uma coreografia da qual emanam agressividade e frustração ora a canções que evidenciam dores e inquietações.
Desde a sequência inicial, quando a personagem da advogada é mostrada como peça de uma engrenagem e com talento superior, o filme se aproxima de seu tema principal. A fuga pretendida, simbolizada pela troca de sexo de um poderoso traficante de drogas, não deixa de ser uma imagem da figura interpretada com brilho e entusiasmo por Zoë Saldaña. Impossível a fuga, simbolizada pela fúria da agora mulher ao exigir a tutela dos filhos, entrando em conflito com aquela que pensa estar lidando com uma parente do marido tido como morto, mas ainda dotado de poder, capaz mesmo de comandar uma organização destinada a descobrir o destino de desaparecidos. A arma na bolsa de uma viúva é o símbolo de uma agressividade não controlada e ainda presente. E a neve se transforma apenas num sonho infantil, outra referência a Pessoa, que o filme não revela inteiramente.