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Cinema
Hélio Nascimento

Hélio Nascimento

Publicada em 06 de Fevereiro de 2025 às 20:12

Setembro 5, de Tim Fehlbraum: O atentado

'Setembro 5' trata de atentado ocorrido durante Jogos Olímpicos de Munique

'Setembro 5' trata de atentado ocorrido durante Jogos Olímpicos de Munique

/PARAMOUNT PICTURES/DIVULGAÇÃO/JC
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Hélio Nascimento
As Olimpíadas de 1972, realizadas em Munique, na então Alemanha Ocidental, marcadas por um atentado com consequências trágicas, eram uma grande oportunidade para que fosse exaltada a paz e a harmonia entre os povos. Dez anos antes, a Civilização esteve seriamente ameaçada por uma guerra devastadora, depois que a então União Soviética instalou em Cuba bases dotadas de armamento atômico. A crise quase resultou numa guerra entre as duas grandes potências, que então lideravam os dois blocos em que o mundo se dividia. Os jogos olímpicos também eram uma oportunidade para a Alemanha, quase três décadas após o fim do nazismo, mostrar ao mundo sua nova face, iluminada pela democracia e pelo respeito aos direitos humanos. As terríveis imagens dos campos de extermínio, muitas delas registradas por cinegrafistas e fotógrafos a serviço do regime hitlerista, eram conhecidas em todo o mundo, principalmente após a realização de Noite e nevoeiro, o grande documentário de Alain Resnais, exibido pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, cuja cópia alguns dias depois foi cedida a uma televisão local para que fosse exibida em horário nobre, algo que causou grande e esperada repercussão. Nada disso impediu que, passado algum tempo, surgissem tentativas de transformar a realidade em fantasia criada pelo cinema americano e por órgãos de propaganda, algo de claro teor antissemita. Uma curiosidade a ser ressaltada é que, na época do atentado, a Orquestra Filarmônica de Israel, então regida pelo maestro indiano Zubin Mehta, estava no Brasil e se apresentou em Porto Alegre, no Dia da Independência, 48 horas depois, no Salão de Atos da Ufrgs. Local lotado e muito protegido.
As Olimpíadas de 1972, realizadas em Munique, na então Alemanha Ocidental, marcadas por um atentado com consequências trágicas, eram uma grande oportunidade para que fosse exaltada a paz e a harmonia entre os povos. Dez anos antes, a Civilização esteve seriamente ameaçada por uma guerra devastadora, depois que a então União Soviética instalou em Cuba bases dotadas de armamento atômico. A crise quase resultou numa guerra entre as duas grandes potências, que então lideravam os dois blocos em que o mundo se dividia. Os jogos olímpicos também eram uma oportunidade para a Alemanha, quase três décadas após o fim do nazismo, mostrar ao mundo sua nova face, iluminada pela democracia e pelo respeito aos direitos humanos. As terríveis imagens dos campos de extermínio, muitas delas registradas por cinegrafistas e fotógrafos a serviço do regime hitlerista, eram conhecidas em todo o mundo, principalmente após a realização de Noite e nevoeiro, o grande documentário de Alain Resnais, exibido pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, cuja cópia alguns dias depois foi cedida a uma televisão local para que fosse exibida em horário nobre, algo que causou grande e esperada repercussão. Nada disso impediu que, passado algum tempo, surgissem tentativas de transformar a realidade em fantasia criada pelo cinema americano e por órgãos de propaganda, algo de claro teor antissemita. Uma curiosidade a ser ressaltada é que, na época do atentado, a Orquestra Filarmônica de Israel, então regida pelo maestro indiano Zubin Mehta, estava no Brasil e se apresentou em Porto Alegre, no Dia da Independência, 48 horas depois, no Salão de Atos da Ufrgs. Local lotado e muito protegido.
Os acontecimentos de setembro de 1972 foram amplamente documentados pela ABC americana, cuja equipe esportiva foi obrigada a se transformar em um agrupamento de profissionais encarregados de acompanhar acontecimentos que não se limitavam ao ato de violência que então ocorria. Os que então tinham nas mãos um grupo de atletas israelenses procuravam um palco universal, numa época em que as comunicações por satélites já eram uma realidade. Uma das imagens, a de um sequestrador na sacada de um prédio da vila olímpica, permanecerá para sempre como síntese reveladora de uma época tumultuada da história da Civilização: o disfarce e a ameaça sintetizados numa única figura. O atentado durante os jogos de 1972 resultou em vários documentários. Mas foi Steven Spielberg, em 2005, ao realizar Munique, o primeiro a abordar o atentado, encenando-o e depois reconstituindo a ação focalizando um comando israelense na missão de executar os organizadores. Agora, em Setembro 5, o diretor suíço Tim Fehlbraum reconstitui os fatos não diretamente, mas através da equipe de jornalistas que, como prisioneiros, permanecem todo o tempo num ambiente opressivo. O cineasta, ao tratar de um tema que coloca o jornalismo em destaque, usa como modelo a linguagem do documentário, como se vários cinegrafistas estivessem registrando o trabalho de colegas. Certamente, o diretor viu e apreciou os filmes do britânico Paul Greengrass e utiliza o mesmo método, de forma a não deixar que as filmagens num único cenário resultem em uma narrativa prejudicada pela monotonia e o desinteresse.
Outro tema abordado é do fracasso dos organizadores, que temendo comparações com a Alemanha nazista, não permitiram que regras de segurança fossem devidamente aplicadas. Esse tema se mescla a um certo olhar de censura por parte de outros, sendo sugerido pelo diálogo entre um americano e uma repórter alemã improvisada como tradutora da equipe. Confrontada com uma pergunta provocativa, ela responde que não age como seus parentes e nunca negou, portanto, o conhecimento dos crimes cometidos. Mas tal tema o filme não aprofunda, preferindo ressaltar o espanto e o desalento dos jornalistas ao se depararem com um ato de violência que então trazia de volta o passado. Quando os jogos foram reiniciados, o adágio da Terceira Sinfonia de Beethoven foi executado no estádio, uma homenagem e um apelo para que o humanismo fosse restaurado.
 

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