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Cinema
Hélio Nascimento

Hélio Nascimento

Publicada em 30 de Janeiro de 2025 às 20:29

Anora, filme de Sean Baker

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Hélio Nascimento
No filme Uma linda mulher, uma das referências óbvias de Anora, o filme de Sean Baker, que venceu o Festival de Cannes do ano passado, um mestre de cerimônia abria e terminava o filme dirigindo-se à plateia para exaltar a fantasia e a concretização de sonhos, uma especialidade hollywoodiana. O contrário acontece no filme de Baker, um realizador que até então atuava em cenário distante das normas dos grandes estúdios. Mas há um erro a ser reparado nessa espécie de lugar comum utilizado por muitos, inclusive em parte da crítica.
No filme Uma linda mulher, uma das referências óbvias de Anora, o filme de Sean Baker, que venceu o Festival de Cannes do ano passado, um mestre de cerimônia abria e terminava o filme dirigindo-se à plateia para exaltar a fantasia e a concretização de sonhos, uma especialidade hollywoodiana. O contrário acontece no filme de Baker, um realizador que até então atuava em cenário distante das normas dos grandes estúdios. Mas há um erro a ser reparado nessa espécie de lugar comum utilizado por muitos, inclusive em parte da crítica.
Há décadas que o cinema americano deixou de ser em sua quase totalidade uma fábrica de fantasias. E mesmo antes, quando a intelectualidade se ajoelhava diante de qualquer filme europeu baseado em peças ou livros consagrados, o cinema norte-americano já produzia filmes que hoje são considerados clássicos. Isso para não falar em Griffith, mestre de Eisenstein e tantos outros, além de ter sido o criador da linguagem cinematográfica. Deixando de lado simplificações e preconceitos que não disfarçavam sua origem ideológica, é importante observar que, na sua estreia no campo dos êxitos de bilheteria, Baker deve muito a Quentin Tarantino, que também foi vencedor em Cannes com Pulp Fiction.
Uma curiosidade é que um filme anterior de Baker, Uma estranha amizade (Starlet), realizado em 2012 e aqui lançado em março de 2014, um atraso justificado pelo fato de o cineasta ainda não ter sido vencedor em algum festival importante e ser nome pouco conhecido, tinha como protagonista uma jovem que ambicionava ser atriz e terminava trabalhando em filmes pornôs. Ela encontrava num objeto adquirido de uma velha senhora US$ 10 mil, que no filme ora em cartaz é uma quantia repetida, o valor de um ser humano, na sociedade atual.
Se o primeiro dever do cinema é clarificar aspectos pouco divulgados e assim contribuir para que o mundo contemporâneo seja melhor conhecido, Anora é obra de uma importância a ser devidamente destacada. O filme é dividido em três partes, como um concerto barroco. O primeiro movimento, agitado e sem problema em ser quase explícito em alguns planos, não apenas acompanha o cotidiano de uma garota de programa como registra de maneira incomum uma espécie de dança das cavernas, como se o ser humano estivesse em processo de regressão e também praticando um ritual macabro, no qual todos parecem fantasmas expondo dores e insatisfações, disfarçando a infelicidade com movimentos de pura agressividade, algo que a iluminação controlada pelo fotógrafo Drew Daniels acentua de forma eloquente. A segunda parte é dedicada a uma fantasia, que tem início com a entrada em cena do filho de um bilionário russo, um homem pertencente a uma classe cuja ascensão definiu e colocou um ponto final em outra espécie de fantasia. Os antigos camaradas agora têm de controlar uma juventude sem horizontes, cujo vazio é preenchido por um luxo exagerado e cujos valores estão concentrados em seu poder de compra, entre eles o de permitir que um casamento improvisado se realize. O novo ouro de Moscou seduz uma garota de programa, que fala russo precariamente e se transforma em proprietária de parte de uma grande fortuna, com isso também permitindo que o marido obtenha um visto permanente nos Estados Unidos.
A parte final transforma o filme numa mescla de comédia amalucada, sem que aspectos dramáticos sejam expulsos da narrativa. Os capangas do bilionário são os agentes da ordem, os defensores da aparência, os templários do sistema ameaçado. À medida em que a ordem vai sendo restabelecida, inclusive com a revelação de como será o futuro, algo clarificado pela mostra do que é verdadeiramente o príncipe encantado, a protagonista vai sendo colocada em seu verdadeiro lugar. O anel certamente é algo que aponta para o silêncio e para a volta da ordem antes ameaçada. Um dos achados do filme de Baker é a introdução em cena do chefe do grupo destinado a resolver o problema criado, que abandona um batizado para cumprir ordens do chefe. Rituais que podem interromper a marcha dos poderosos devem ser interrompidos. Tudo deve ser cercado de escuridão e silêncio.
 

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