Três filmes produzidos recentemente e premiados em diversos festivais, além de frequentadores de cerimônias de premiação anuais em vários países, estão em exibição na cidade. Dois deles, Ainda estou aqui e Tudo que imaginamos como luz, há algum tempo; o terceiro, A semente do fruto sagrado, aparecendo como o primeiro lançamento importante do ano. Mais do que isso, a obra dirigida por Mohammad Rasoulof é um dos grandes, talvez o maior, de todo os filmes lançados aqui nos últimos meses. Assim como os outros dois, um brasileiro e outro indiano, esse trabalho, realizado clandestinamente no Irã e assumido pela Alemanha que o indicou para a disputa do Oscar internacional, trata do tema da opressão e coloca mulheres no centro do drama.
O fato do diretor ter se exilado naquele país europeu, depois de uma fuga de sua nação de origem, onde já havia sido condenado antes por posições contrárias à política dos aiatolás, deu direito às autoridades do cinema germânico indicarem o filme, Trata-se de um trabalho excepcional, dotado de força incomum em sua denúncia das arbitrariedades praticadas principalmente contra mulheres, partindo de um caso verídico em que uma jovem, por usar de forma não autorizada o véu e deixando à mostra parte dos cabelos foi conduzida a uma delegacia onde teria morrido após ter sido torturada. O regime alega que ela sofreu um ataque cardíaco, mas o fato deu origem a protestos classificados pelo governo como organizados por desordeiros. Muitos vídeos registrando os protestos são utilizados por Rasoulof em seu filme, o que faz que ele se transforme, em alguns momentos, num documentário sobre a repressão.
Distante de qualquer maniqueísmo e superficialidade, o filme é duro na crítica, mas não se limita a um ataque oportuno e corajoso à teocracia. Ao colocar uma família no centro da narrativa, o filme desenvolve e aprofunda o tema da agressividade desde o começo, quando o pai, um funcionário da justiça e homem que procura se manter íntegro e justo, é promovido e passa a ter direito de portar uma arma, que ele, com certo orgulho, mostra para a esposa, como se tal objeto fosse um símbolo de sucesso e poder. Depois que ele fica sabendo que seu antecessor fora dispensado por se negar a assinar uma pena de morte claramente injusta, passa a se adaptar às regras dominantes, a fim de manter sua posição. É o momento do choque de gerações e de ser exposta a contradição de um regime autoritário conviver com modernas tecnologias de comunicação entre pessoas não devidamente controladas. É dentro da própria família que o drama maior se desenvolve. A mãe tenta controlar a insatisfação das filhas e o drama do marido, que aos poucos vai sendo dominado pela tirania e tomado por uma agressividade que a companheira, mesmo cortando o cabelo deste Sansão dominado pelo mal, não consegue controlar. O notável neste filme admirável é que seu realizador se aproxima da violência ao mostrar sua origem no núcleo fundamental, quando este se transforma em cenário erguido pela inversão de valore: a violência no lugar da disciplina, a brutalidade em vez da busca de um diálogo esclarecedor.
E há momentos em que dificilmente deixarão o espectador indiferente, como o que registra a brutalidade e seus efeitos no rosto de uma menina e o interrogatório das três mulheres, feito por um amigo da família, então transformado em burocrata indiferente a qualquer pedido gerado pelo medo. Eis um filme que enquadra com rigor qualquer regime autoritário, certamente porque o liga a impulsos cuja origem se encontra no ser humano acuado e transformado em indivíduo ameaçado. O cenário da sequência final transfere a ação para um mundo primitivo, ainda não disciplinado pela civilização. Foge, portanto, de acusações destinadas a expor apenas distorções e atrocidades transformadas em rituais permitidos por leis não escritas. Alguns cineastas iranianos costumavam utilizar crianças como personagens controlados para falar do autoritarismo. Mas agora, com este filme poderoso e incomum, o cinema fala diretamente ao espectador sobre os métodos do despotismo. Utiliza um país para falar do mal maior. Mas não se deixa enquadrar por limites. A denúncia é direta e também universal.