Patrícia Lima, especial para o JC*
Muito além da Serra gaúcha, a Campanha desponta como um destino promissor para os amantes do vinho. Com vastas paisagens de coxilhas e campos, a região combina tradição e inovação na vitivinicultura, destacando-se pela qualidade de seus rótulos e pelo selo de Indicação de Procedência (IP Campanha Gaúcha). Com vinícolas espalhadas por diferentes pontos, a experiência turística envolve desde piqueniques e degustações até passeios icônicos, como o recém-inaugurado Trem do Pampa. Além de impulsionar o turismo, a enocultura da Campanha fortalece a identidade do vinho brasileiro e combate a concorrência desleal de produtos ilegais.

No limite entre Dom Pedrito e Bagé, no topo de uma colina, está a Cerros de Gaya, vinícola boutique que encanta os visitantes com cenários bucólicos
Cerros de Gaya/Divulgação/JCO primeiro destino que vem à mente de quem quer viajar para contemplar vinhedos e provar vinhos é a Serra Gaúcha. Mas é sempre bom lembrar que nem só de Bento Gonçalves e Vale dos Vinhedos vive o enoturismo gaúcho. Uma outra rota turística, com características bastante distintas e vinhos igualmente surpreendentes, toma forma na imensidão do Pampa. Bordada pelas coxilhas e cerros, a Campanha é a nova fronteira do vinho no Rio Grande do Sul pela sua extensão e pelas características extremamente favoráveis de clima e solo.
Agora, também desponta como atrativo turístico qualificado para os amantes da bebida. Antes do começo da vindima na Campanha, no final de janeiro, a reportagem do Jornal do Comércio mergulhou nesse roteiro para conhecer os atrativos, as pessoas e, claro, os vinhos dessa região cada vez mais relevante para o setor.
Diferentemente da Serra Gaúcha, em que as vinícolas estão próximas umas das outras e novos pontos de interesse surgem a cada curva, a Campanha é uma terra de vastidões. É preciso percorrer algumas distâncias para acessar os locais que se destacam no enoturismo. Mas isso também é parte da magia do passeio, que normalmente é feito de carro particular ou em veículos turísticos, no caso de grupos. Tomar um chimarrão e contemplar as bucólicas paisagens de campos e coxilhas é o primeiro passo para desacelerar e imergir no ritmo e nas cores do Bioma Pampa. Pela estrada, além dos vinhedos, o pasto nativo alimenta o gado de corte, produto gaúcho de excelência que harmoniza à perfeição com o vinho que nasce nesse terroir.
A Associação dos Vinhos da Campanha Gaúcha congrega 18 empresas, entre as quais mais de 10 têm programas receptivos para os turistas que estão na região e desejam conhecer mais sobre os vinhos e roteiros. E as opções são variadas, desde piquenique entre os vinhedos e degustações orientadas até almoços temáticos que harmonizam com a carne superpremium produzida no bioma com os vinhos da região. Esse pacote vem emoldurado pela paisagem única do Pampa, em tudo diferente das demais regiões vinícolas do Estado.
Para deixar o roteiro ainda mais atrativo, a região possui, desde 2020, o selo de Indicação de Procedência (IP Campanha Gaúcha), que atesta o local e o modo de produção dos rótulos. O reconhecimento favorece a divulgação da vitivinicultura e assegura a qualidade do vinho local.
Berço da produção vitivinícola em escala industrial do País, a Campanha produz vinhos para consumo no mercado interno e exportação há 150 anos. A primeira vinícola registrada do Brasil foi a J. Marimon & Filhos, cujos vinhedos foram implantados em 1882, na Quinta do Seival, onde hoje fica a cidade de Candiota - uma das paradas do nosso percurso percorrido.
Em uma estrutura de paredes de barro e telhado de palha, a empresa elaborava vinhos que no início do século XX já eram reconhecidos por sua qualidade. Em 1923, Marimon foi premiado com a Medalha de Ouro na Exposição do Centenário da Independência, que ocorreu no Rio de Janeiro com a participação de mais de três milhões de pessoas.
Essa primeira vinícola não perdurou, mas outros investimentos ocorreram na região algumas décadas depois. O principal deles foi feito pelo grupo americano Almadén, que, em 1973, instalou a primeira vinícola de Santana do Livramento, para produzir uvas e vinhos com a marca californiana. Em 2009, a estrutura foi adquirida pela Miolo, que vem fazendo grandes investimentos para a produção de vinhos finos no local.

Estação Ferroviária do Trem do Pampa em Santana do Livramento
TÂNIA MEINERZ/JC
Inaugurado em 2024, o Trem do Pampa deu impulso inédito ao turismo na região. Um passeio de mais de duas horas que liga as estações ferroviárias de Palomas e Santana do Livramento, com parada na Almadén, tem sido um catalisador importante para a atividade. Além da viagem em si, os passageiros curtem degustações e atrações culturais a bordo, além de fazerem uma visitação à vinícola. Mas não é obrigatório embarcar no trem para curtir as belezas da região.
Para a presidente da Associação dos Vinhos da Campanha, Rosana Wagner, o turismo é fundamental para tornar mais conhecidas as vinícolas da região e para consolidar a imagem do vinho brasileiro elaborado na Campanha, cuja qualidade é reconhecida. Ela também destaca a importância da conexão entre o consumidor e o produto, fortalecida pelas experiências enoturísticas, especialmente em tempos de competição desleal com produtos contrabandeados.
"Com essa onda de contrabando e descaminho, o turismo se torna ainda mais importante não só para escoar a nossa produção e gerar empregos, mas para conscientizar o consumidor sobre a importância de rejeitar o produto ilegal", afirma.
Líder absoluto na produção nacional de vinhos, responsável por mais de 80% do volume, o Rio Grande do Sul também é o principal destino de enoturismo no País. A pandemia consolidou a Serra gaúcha e, principalmente, o Vale dos Vinhedos, como destinos obrigatórios para quem gosta de viajar em busca de experiências enogastronômicas.
A Campanha, porém, revela a diversidade de opções no Estado, com experiências e dinâmicas distintas. Região de clima temperado, tem invernos muito frios e verões secos e de grande amplitude térmica, com cerca de 15 horas diárias de sol na época de maturação e colheita. Essas características conferem uma personalidade única aos vinhos, que são a principal atração de qualquer experiência turística. Então, antes de preparar sua próxima viagem, nos acompanhe nesse roteiro repleto de sabores, aromas e histórias.
Dicas para o seu passeio

- As distâncias costumam ser longas entre um atrativo e outro. Por isso, programe seu passeio com tempo.
- As cidades ideais para ficar durante este roteiro são Bagé e Santana do Livramento, em que a oferta de hotéis e restaurantes é maior.
- Ao programar sua viagem, reserve os passeios e as degustações. Algumas vinícolas atendem por ordem de chegada, mas o ideal é reservar para evitar ficar sem programação depois de percorrer uma longa distância.
Vinho e queijo para harmonizar com a imensidão da paisagem

Leite de ovelhas se transforma em maravilhas no Terroir da Vigia
Miolo/Divulgação/JCNos arredores de Bagé e Dom Pedrito, duas vinícolas abrem suas portas para que o visitante harmonize vinhos com o cenário infinito do Pampa. Uma delas, a Peruzzo, fica pertinho do Centro de Bagé e permanece aberta durante todo o dia para degustações e compra dos rótulos.

Enoturismo Campanha Vinícola Peruzzo Foto Dandy Marchetti
Dandy Marchetti/Divulgaçã/JCo
Localizado no alto de uma coxilha, o espaço receptivo envidraçado posiciona ao visitante, no coração do terreno bordado por pastagens, lavouras e, claro, vinhedos. Além de degustações dos rótulos da marca, também é possível agendar experiências mais personalizadas como almoços ou jantares harmonizados, com iguarias preparadas pela proprietária da vinícola, Clori Peruzzo.
Já no limite entre Dom Pedrito e Bagé, no topo de uma colina, está a Cerros de Gaya, vinícola boutique que é resultado do sonho compartilhado por um médico e uma agrônoma. Com um deque panorâmico e um espaço receptivo todo envidraçado, a Cerros tem recebido grupos de turistas que têm ali o primeiro contato com os rótulos da marca. As degustações são orientadas pela própria Eveline Previtali, fundadora da vinícola, mas os verdadeiros protagonistas são os vinhos e o pôr do sol nas coxilhas, imagem que traduz o espírito da Campanha Gaúcha.

Enoturismo Campanha conta com a Vinícola Peruzzo no roteiro
Vinícola Peruzzo/Divulgaçã/JCo
Quando o assunto é queijo com forte característica regional, o ponto do mapa se desloca para Santana do Livramento, onde o leite de ovelhas se transforma em maravilhas no Terroir da Vigia. Fruto do cruzamento de animais de diferentes raças, como as leiteiras lacaune e as crioulas, o rebanho de ovelhas é altamente adaptado ao terreno e às condições climáticas da região. O resultado são queijos de grande personalidade, que podem ser degustados na própria estrutura da queijaria. Como também produz vinhos autorais e de mínima intervenção, a experiência pode ser completa, com o combo queijo e vinho, que é a receita perfeita para a felicidade.
Dois séculos de história nos caminhos e nas taças

Familia Mercio está há mais de 230 anos na Estância Paraizo, local que reúne história, gastronomia e vinicultura
Patrícia Lima/Especial/JCO Pampa profundo tem estradas de chão pedregoso, porteiras para abrir, extensões de pasto nativo em que o gado pasta sem pressa, lebres que saltam ligeiras na frente do carro. Também tem gente a cavalo e capões de mato. Tem velhos casarões, que testemunham séculos de trabalho e de guerras. E tem vinhos. É por gente apaixonada por tudo o que esse território oferece que os visitantes são recebidos na Estância Paraizo, uma antiga propriedade no interior de Bagé, que está na família Mercio há mais de 230 anos e que hoje se reinventa, pelas mãos da décima geração.

Estância Paraizo tem seu roteiro guiado pelos princípios da conservação do Bioma Pampa
Estância Paraizo/Divukgação/Jc
Na estância, a produção de gado de raças britânicas e a vitivinicultura dividem espaço harmoniosamente, tudo guiado pelos princípios da conservação do Bioma Pampa, ditados pelo projeto Alianza del Pastizal, iniciativa multinacional para a implementação de práticas produtivas sustentáveis.
No velhíssimo galpão de pedra, que já foi refúgio dos peões e proteção em tempos de conflitos como a Guerra dos Farrapos e a Revolução Federalista, está sendo construída a estrutura para abrigar a vinícola - por enquanto, os sete rótulos da Estância Paraizo são vinificados em estrutura terceirizada. É no mesmo local que ocorrem as degustações orientadas e os almoços harmonizados, que além dos vinhos, também oferecem iguarias típicas da culinária pampeana, como o espinhaço de ovelha ensopado. Embaixo das enormes figueiras, o ambiente é perfeito para os piqueniques.
Diretora da Estância Paraizo e idealizadora do projeto enoturístico, Victoria Mercio é apaixonada pela história da propriedade da família. É ela quem conduz o Tour Cova de Toro, um passeio pelo vinhedo de syrah mais antigo do País e pela belíssima Capela de São Jorge, construída no início do século 20 como mausoléu. Ao redor do sítio histórico, ela conta as reviravoltas da briga entre maragatos e pica-paus, que lutaram naquelas mesmas terras em 1893. Com sorte, o visitante também terá a companhia dos pais de Victoria ao longo do recorrido, além da presença alegre de seus cães. Ao conhecer os eventos que tiveram palco na centenária fazenda, também se entende os nomes dados aos rótulos dos vinhos, cada um referindo um personagem ou um local importante nessa trajetória. Sempre que pode, Victoria e o irmão, Thomaz, orientam as degustações e as atividades de enoturismo. Segundo ela, o turista que visita a propriedade vê as atividades diárias de uma estância produtiva, o que é muito atraente. "Aqui tudo é de verdade, as pessoas podem ver a rotina do gaúcho autêntico, além de conhecer vinhos com uma identidade própria. Esse é o grande barato da Campanha", garante.
O afeto e os sabores de um sonho de família

Mariana e Gabriela, nos vinhedos Guatambu, conduzem os turistas pela trajetória da família Pötter
Guatambu/Divulgação/JCHá duas gerações, o negócio da família Pötter, no interior de Dom Pedrito, era o gado de corte das raças Hereford e Braford e as lavouras de grãos. Até uma das filhas de Valter José, o patriarca, aparecer com a ideia de diversificar e implantar vinhedos na propriedade. Engenheira Agrônoma, Gabriela Pötter sabia do potencial do terroir da Campanha para produzir vinhos de grande qualidade.
Foi assim que, em 2003, foram plantadas as primeiras mudas importadas da França e da Itália na propriedade de Leões. Dez anos depois, em 2013, foi inaugurada oficialmente a Guatambu Estância do Vinho, um dos principais polos enoturísticos da região.
Na estrutura moderna cuja porteira fica às margens da BR-293, a estética faz referência às estâncias históricas, com toques de contemporaneidade. O principal deles é o conjunto de placas solares que garante 100% de energia limpa para a operação da vinícola.
Das portas para dentro, o visitante mergulha em um tour pela trajetória da família Pötter e pelas etapas de vinificação dos tintos, brancos e espumantes elaborados ali. Em cada parada, um tempo extra é reservado para a degustação de rótulos selecionados pelos enólogos para ilustrar a experiência.

Enoturismo Campanha turistas na Guatambu Foto divulgação
Guatambu/Divulgação/JC
As degustações e passeios guiados pelo interior da vinícola são oferecidos diariamente e a procura tem crescido a cada mês. Nada se compara, porém, ao frenesi provocado pelas datas mais concorridas do calendário da Guatambu.
Com fila de espera que pode chegar a meses, o Dia Épico ocorre uma vez por mês e consiste em uma imersão completa no universo da vitivinicultura do Pampa. Depois de conhecer a estrutura do local, o turista é encaminhado a um grande salão onde ocorre o almoço harmonizado, momento em que as carnes premium produzidas na própria estância são servidas junto com os rótulos mais prestigiados da casa.
Tudo embalado por músicos locais que executam o melhor do cancioneiro gaúcho de raiz. É programação para um dia inteiro, com direito a curtir o pós-almoço com uma tacinha de espumante no Jardim Isadora, espaço afetivo que homenageia uma das filhas e fundadoras da vinícola. Muitas vezes, quem assa o churrasco na parrilla é o próprio Valter José. A enóloga Gabriela Pötter explica todas as etapas da harmonização e a matriarca, Nara, cuida dos mínimos detalhes da recepção aos comensais.

Guatambu _ Enoturismo _ Mapa Econômico RS _ Jornal do Comércio
Guatambu/Divulgação/JC
"Fazemos esse almoço somente uma vez por mês, apesar da procura sempre exceder a oferta. É um momento em que a nossa família se reúne para receber as pessoas em casa, então fazemos questão de preparar o melhor. Nosso objetivo é oferecer uma experiência do que a Campanha tem de mais autêntico e saboroso", comenta Mariana Pötter Vieira, responsável pelo enoturismo na Guatambu".
Mergulho nas raízes ancestrais do Pampa

Enoturismo Campanha Miolo Almadén Foto divulgação
Miolo/Divulgação/JC
Paleotoca Almadén deve integrar roteiro de exploração de sítio arqueológico
Patrícia Lima/Especial/JC

Enoturismo Campanha Miolo Almadén Foto divulgação
Miolo/Divulgação/JC
Há poucos meses, esse plano para estimular o turismo ganhou um reforço ancestral. Conhecida há muito pelos trabalhadores da vinícola, mas ignorada pelo grande público, uma paleotoca deve entrar oficialmente nos roteiros de visitação da Almadén. Localizada em um capão de mato em meio aos vinhedos, a toca de 40 metros de extensão foi, provavelmente, escavada por um tatu gigante e, depois, ocupada por uma preguiça que fez ali seu ninho, há cerca de 15 mil anos, período em que a megafauna ocupava toda a extensão da Campanha. Já sinalizado como Paleotoca Almadén, o local já foi vistoriado por arqueólogos e paleontólogos e deve integrar um roteiro que inclui, além da exploração do sítio arqueológico, a degustação de vinhos no trajeto.
Outro atrativo para além das degustações tradicionais é a amorosa visita ao vinhedo mais antigo da Campanha, uma parcela de tannat plantada em 1976, que dá origem a um dos vinhos mais prestigiados da Miolo, o Tannat Vinhas Velhas. Depois de um trajeto cheio de aventuras, por entre parreirais e estradas pedregosas, é possível degustar o vinho diante do vinhedo irregular, com plantas pequenas e de troncos retorcidos, que conta um pouco da história da vitivinicultura brasileira.
“Além dessas opções que fogem da programação tradicional, temos projetos que visam a experiência do vinho, como a degustação no deck, com vista para os vinhedos, e o percurso no Museu Semente, para compreender como funcionavam os porta-enxertos, onde se pode conhecer mais o processo de cultivo. Tudo isso é conhecimento sobre o vinho, para aproximar a bebida das pessoas”, salienta Alex Machado, Coordenador de Enoturismo da Vinícola Almadén. Ele comenta ainda que os rótulos com selo de Indicação de Procedência da Campanha Gaúcha são cada vez mais procurados para degustações que ressaltem as características do terroir, o que revela o interesse do público pelo produto de qualidade certificada.
Passeio por uma história de amor
Rosana criou o Dom Gladistão, uma forma de homenagear o marido
CORDILHEIRA DE SANT'ANA/DIVULGA??O/JCO casal Rosana e Gladistão, que se conheceu trabalhando na indústria de bebidas, sonhou viver do vinho. Depois de muitas buscas, encontraram um terreno perfeito, aos pés do Cerro Palomas, em Santana do Livramento. Com características ideais de clima e solo, poderiam produzir ali vinhos de grande estrutura e potencial de guarda. Nasceu, assim, em 1999, a vinícola Cordilheira de Sant'ana.
Para respeitar o ciclo das videiras e sem intenção de apressar qualquer processo, o primeiro rótulo saiu somente em janeiro de 2004. Com a estrutura pronta e a produção encaminhada, os visitantes começaram a ser recebidos em 2005. Era como receber amigos em uma extensão da afetuosa casa da dupla.

Vista da Cordilheira de Sant'ana é um dos destaques dos tours guiados
Patrícia Lima/Especial/JC
As portas da Cordilheira de Sant'ana estão abertas até hoje, com um fluxo cada vez maior de turistas que chegam ao local para conhecer os vinhos que nascem desse amor. Tours guiados e degustações são realizados diariamente, com a possibilidade de aproveitar o pôr do sol com vista para o majestoso Cerro Palomas. A sommeliére Márcia Borges, que é "cria" da vinícola e trabalha há mais de 20 anos no local, é quem recebe a maior parte dos visitantes, orientando as degustações e explicando o processo produtivo. Rosana Wagner, a fundadora, sempre que pode também recebe os turistas.
Ao contar sua história, ela lembra com carinho e saudade de seu querido Gladistão, o companheiro de uma vida que sonhou com ela a vinícola e os vinhos degustados a cada experiência. Ele morreu em 2023 e, em sua homenagem, ela criou um tinto com as melhores parcelas, provenientes das melhores colheitas. "O Dom Gladistão é a minha obra de arte, que temos o prazer de degustar com quem nos visita. Foi uma sorte ele ter conseguido provar esse vinho antes de partir", relembra Rosana.
PAN - VINHOS CORDILHEIRA - DIVULGA??O CORDILHEIRA
CORDILHEIRA/DIVULGA??O/JC
Além das degustações e visitas guiadas, a Cordilheira de Sant'ana também oferece experiências como piqueniques e até um assado de cordeiro na brasa, tudo no melhor estilo pampeano.
Deriva de herbicida ameaça enoturismo e o próprio crescimento do setor
Um assunto é unanimidade quando se conversa com produtores de vinho da Campanha Gaúcha: a ameaça do 2,4-D, um herbicida utilizado para controle de ervas daninhas nas lavouras de soja e cuja deriva ameaça a própria vitivinicultura da região.
Quase todos os produtores entrevistados para esta reportagem relatam perdas com a deriva do agrotóxico - alguns chegaram a perder a safra 2025 inteira e precisarão comprar uva de outros agricultores para manter a produção.
Uma das vozes mais combativas é a de Valter José Pötter, fundador da Guatambu e que já presidiu a Associação dos Vinhos da Campanha. Segundo ele, a deriva do 2,4-D está impedindo o crescimento do setor em toda a Campanha, limitando investimentos e desestimulando produtores a plantar vinhedos. Muitos, segundo ele, estão considerando abandonar a atividade.
A solução, na opinião dele, seria proibir o uso do herbicida, já que existem outras maneiras mais adequadas de controlar pragas, como a buva nas lavouras de soja. A alternância de culturas para a proteção do solo e o uso de palhada tem sido eficiente na própria lavoura da propriedade.
Na dificuldade de proibir, o uso racional e com manejo correto seria uma maneira de remediar os estragos causados pela deriva. "Se acabarem com o uso do 2,4-D, no dia seguinte vou investir em mais 100 hectares de vinhedos na Guatambu", afirma.
Falar sério sobre a deriva deste agrotóxico é uma decisão sobre o futuro da agropecuária gaúcha, segundo a presidente da Associação dos Vinhos da Campanha, Rosana Wagner. Para ela, é fundamental que a diversificação de culturas entre na pauta das autoridades, sob pena de inviabilizar toda a fruticultura no Pampa, já que a deriva do 2,4-D atinge todas as plantas de folhas largas, entre elas as videiras e as oliveiras. "Nos encaminhamos para a monocultura de soja em pleno Pampa", alerta.
É importante lembrar que o vinho feito na Campanha não tem resíduos deste agrotóxico. Por ser um herbicida, ele mata as plantas com as quais tem contato e, as que não morrem, ficam improdutivas. Por óbvio, as videiras que produzem uvas na região não chegaram a ser atingidas pelo herbicida.
*Patrícia Lima é jornalista natural de Rio Grande, formada na Universidade Católica de Pelotas, especialista em Estudos de Jornalismo pela UFSC e mestre em Literatura pela Ufrgs. Lançou, com Luís Augusto Fischer, o livro Inquéritos em contraste: crônicas urbanas de Simões Lopes Neto (Edigal, 2016).