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Publicada em 02 de Novembro de 2024 às 15:00

Fazenda Tertúlia dá novos rumos para a ovinocultura

Ao lado da esposa Denise Soldera, Bernardo Baseggio investe em novo projeto da pecuária gaúcha

Ao lado da esposa Denise Soldera, Bernardo Baseggio investe em novo projeto da pecuária gaúcha

Fazenda Tertúlia/Divulgação/JC
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Cristine Pires
Cristine Pires Editora-assistente de Economia
Por mais tradição que o Rio Grande do Sul tenha com a produção de ovinos, a cadeia produtiva do cordeiro enfrenta diversos desafios ao longo dos anos. Nas últimas décadas, o que se viu na ovinocultura foi a desvalorização do mercado de lã e a valorização da carne. Apesar do sucesso de alguns projetos de produção de cortes premium, no campo a atividade ainda tem muito a crescer. Confiando na força da produção de cordeiros superiores e no estímulo ao consumo de carne de cordeiro no dia a dia, o produtor Bernardo Baseggio deu vida à Fazenda Tertúlia. Em terras recentemente adquiridas no coração do Itaroquém, município de São Luiz Gonzaga (RS), ele a e a esposa Denise Soldera vêm dando vida a esse projeto que, em breve, será o futuro da pequena Maria Eloá, que, recém-nascida no mês de outubro, já acompanha os primeiros passos desse projeto que promete inovar a ovinocultura gaúcha.
Por mais tradição que o Rio Grande do Sul tenha com a produção de ovinos, a cadeia produtiva do cordeiro enfrenta diversos desafios ao longo dos anos. Nas últimas décadas, o que se viu na ovinocultura foi a desvalorização do mercado de lã e a valorização da carne. Apesar do sucesso de alguns projetos de produção de cortes premium, no campo a atividade ainda tem muito a crescer. Confiando na força da produção de cordeiros superiores e no estímulo ao consumo de carne de cordeiro no dia a dia, o produtor Bernardo Baseggio deu vida à Fazenda Tertúlia. Em terras recentemente adquiridas no coração do Itaroquém, município de São Luiz Gonzaga (RS), ele a e a esposa Denise Soldera vêm dando vida a esse projeto que, em breve, será o futuro da pequena Maria Eloá, que, recém-nascida no mês de outubro, já acompanha os primeiros passos desse projeto que promete inovar a ovinocultura gaúcha.
Empresas & Negócios - Qual é o cenário da pecuária ovina no Brasil e no Estado?
Bernardo Bassegio - O Brasil figura hoje entre os Top 20 de população ovina no mundo, ocupando o 18º lugar, com uma população de mais de 21 milhões de cabeças. O Rio Grande do Sul ocupa a terceira posição em tamanho de rebanho no Brasil, ficando atrás apenas de Bahia e Pernambuco, com um rebanho de quase 3 milhões de animais, considerando números da Embrapa.
E&N - Quais foram os impactos das enchentes na atividade?
Bassegio - As chuvas registradas no Rio Grande do Sul causaram perdas graves no campo em diferentes proporções. A umidade e o período chuvoso prejudicaram muito o rebanho ovino, principalmente a saúde dos cascos das ovelhas, o que nos leva a um cuidado redobrado com aplicação de medicamentos específicos, prevenindo lesões e, em casos onde a prevenção não foi suficiente, ajudando na recuperação do animal. Nossa fazenda está em uma região que não foi atingida diretamente pelas enchentes. Mas o que vemos hoje no campo é um reflexo da umidade excessiva do inverno deste ano - os campos nativos estão com brotação escassa. A opção foi aumentar o confinamento do rebanho, oferecendo comida para garantir animais gordos e no ponto de abate. Este, na verdade, é um grande gargalo do setor. Falta a consciência de que precisamos suplementar os animais se quisermos chegar ao produto precoce que buscamos, que é exatamente a carne que o mercado procura. O consumidor moderno não come ovino porque associa a carne ao gosto forte característico de animais de mais idade. O cordeiro tem um sabor suave, ainda mais se falarmos de animais criador nos campos do Itaroquém, uma região caracterizada por conceder um sabor diferente aos animais que vivem nesse ecossistema.
E&N - Quais são os principais desafios enfrentados pelos produtores de ovinos no RS em relação à produção e comercialização de carne de cordeiro?
Bassegio - Um dos principais desafios do produtor gaúcho é vencer a entressafra. Por conta das melhores épocas para parição e acasalamento, as vezes não se tem animais prontos para comercialização em todas as épocas do ano. Algumas regiões podem ser afetadas pela logística até o frigorifico, que podem ter que compensar a distância maior com um número maior de animais para o carregamento. Se a fazenda não conta com métodos de produção de cordeiros para épocas em que não há abundância na oferta, pode acabar enfrentando preços não tão atrativos quanto em épocas de apagão de cordeiro. A dificuldade do mercado também vem com a sazonalidade do consumo, principalmente nas festas de fim de ano. Assim como os bovinos, os produtores de cordeiro precisam estruturar sua produção de forma a ter animais no ponto de abate ao longo do ano e em volumes adequados para seguir abastecendo a demanda. Não há espaço para criar uma demanda sem ela, logo ali adiante, se não puder ser abastecida com eficiência e com o padrão prometido.
E&N- Como a integração entre o campo, a produção industrial e o varejo têm se desenvolvido no mercado de carne de cordeiro no RS?
Bassegio - Nasceram alguns projetos interessantes nesse sentido, e cada vez mais o consumidor está interessado em como o animal que está consumindo chegou até a sua mesa: se foi bem cuidado, bem alimentado, bem manuseado e bem armazenado, o que de fato é muito importante para a cadeia produtiva. Contudo, a comunicação do campo até a mesa está longe de ser uma linha direta, cabendo a nós informar cada vez mais e melhor o consumidor. O varejo está mudando e o mercado da carne de cordeiro terá que mudar junto. Entendemos que é preciso avançar no porcionamento, alternativas de cortes, até mesmo em uma linha ''pronto uso'' para que pessoas com o dia a dia corrido coloquem direto em uma air fryer. É de olho nesse novo consumidor que estamos trabalhando.
E&N - De que forma as novas tecnologias e práticas sustentáveis estão sendo aplicadas na produção gaúcha?
Bassegio - Não é de hoje que temos tecnologias como transferências de embriões e inseminação artificial para realizar o melhoramento genético dentro das propriedades. Porém, recentemente, essas ferramentas vêm ganhando corpo dentro de rebanhos comerciais, extrapolando o uso anteriormente restrito a cabanhas produtoras de genética e animais de pista. Há programas de melhoramento genéticos indicando a seleção de reprodutores com características produtivas desejadas em formato similar ao que ocorre nos bovinos. Nos cordeiros, hoje é possível a utilização de creep-feeding, um sistema de alimentação suplementar que garante melhor conversão alimentar do animal. Com isso, aumentam seu peso ao desmame, produzindo mais carne por hectare e conferindo mais lucro ao produtor. Instalação de novos confinamentos também ajuda e muito a ovinocultura gaúcha, garantindo entrega o ano inteiro aos frigoríficos, evitando assim que deixemos os mercados consumidores desabastecidos. O ovino hoje é talvez o animal que mais se encaixa em sistemas de produção integradas, até mesmo em entressafras de áreas cultivadas com soja e milho. A integração lavoura pecuária com uso de ovinos é extremamente sustentável ao meio ambiente e ao bolso do produtor, rendendo lucro liquido por vezes maior que a produção de trigo e aveia, sem contar no incremento da qualidade do solo por conta da matéria orgânica deixada pelo rebanho.
E&N - Quais são as expectativas para o futuro do mercado de carne de cordeiro no Rio Grande do Sul?
Bassegio - As expectativas para o futuro são promissoras, cada vez mais nossa carne tem sido reconhecida e diferenciada pela qualidade superior. Mas temos muito trabalho pela frente, de produção, comunicação, conscientização e divulgação. Sonho com o momento em que as nossas crianças estarão comendo carne ovina nas escolas, revivendo a nossa cultura com a alimentação ovina no nosso dia a dia novamente. Para isso, precisamos de boas parcerias entre campo, indústria e varejo, aliado à melhoria contínua da produção de cada um.
E&N - Quais estratégias estão sendo adotadas para aumentar a competitividade da carne de cordeiro do RS no mercado nacional e internacional?
Bassegio - Acredito que nossa melhor estratégia é a comunicação. Contar a história do cordeiro gaúcho, enaltecer as suas qualidades que são tão apreciadas pelo consumidor, e, aliado a isso, aumentar nossa produção, para termos cada vez mais oferta ao consumidor, podendo chegar a números de quem sabe fornecer internacionalmente a nossa carne.
 

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